sexta-feira, 9 de setembro de 2011

PENSAMENTO EM BUSCA



Atravessar a própria solidão


"(...)nós verificamos que somos, muitas vezes, estrangeiros na própria casa. A solidão, ainda que tenha algo de vertiginoso, abre-nos as portas da nossa própria casa; convida-nos a entrar e a viajar até ao mais profundo do nosso coração. Creio que só nos lançaremos nesta viagem, quando a sede se torna insuportável" (Carlos Maria Antunes, Atravessar a própria solidão, Paulinas, Junho 2011). 

O padre Carlos Maria Antunes, monge cisterciense do Mosteiro de Santa Maria de Sobrado, na Galiza (Espanha), nasceu em Tomar e foi pároco na diocese de Santarém.

grão de mostarda

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PENSAMENTO EM BUSCA


Atravessar a própria solidão
“(…)Somos beleza, beleza irrepetível, da qual não temos o direito de nos privarmos nem de privarmos os outros. Adentrarmo-nos na nossa solidão, como humildes peregrinos, ainda que alguns passos sejam especialmente duros, é o nosso contributo para a grande sinfonia da vida, para a qual toda a criação está convocada”. (Carlos Maria Antunes, Atravessar a própria solidão, Paulinas, Junho 2011).

O padre Carlos Maria Antunes, monge cisterciense do Mosteiro de Santa Maria de Sobrado, na Galiza (Espanha), nasceu em Tomar e foi pároco na diocese de Santarém.
grão de mostarda

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PENSAMENTOS EM BUSCA


Atravessar a própria solidão
“Estar na vida como peregrinos ensina-nos a ser humildes, a assumirmo-nos como inacabados. O mistério da nossa própria existência requer de nós, como do peregrino, fazermo-nos ao caminho, adentrarmo-nos no desconhecido, sempre com grande humildade. Face ao insondável que nos habita, não há outra forma”. (Carlos Maria Antunes, Atravessar a própria solidão, Paulinas, Junho 2011).

O padre Carlos Maria Antunes, monge cisterciense do Mosteiro de Santa Maria de Sobrado, na Galiza (Espanha), nasceu em Tomar e foi pároco na diocese de Santarém.
grão de mostarda
Foto: © Mosteiro Sta. Maria de Sobrado

terça-feira, 6 de setembro de 2011

PENSAMENTOS EM BUSCA

“O acesso à nossa identidade mais profunda requererá sempre uma peregrinação. E, para o peregrino, ainda que parta movido pelo desejo da chegada, o próprio caminho ensinar-lhe-á que a densidade da peregrinação lhe será dada pelos passos dados, pela luta que supõe cada dia (…). Reconhecerá que o importante na vida, mais do que chegar, é mesmo o caminho”. (Carlos Maria Antunes, Atravessar a própria solidão, Paulinas, Junho 2011).



O padre Carlos Maria Antunes, monge cisterciense do Mosteiro de Santa Maria de Sobrado, na Galiza (Espanha), nasceu em Tomar e foi pároco na diocese de Santarém.

grão de mostarda
Foto: © coisasdavida.fotosblogue.com

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PENSAMENTOS EM BUSCA


Atravessar a própria solidão
“Todos somos seres solitários. Ainda que vivamos num contexto de grande qualidade afetiva (…) ainda que nos sintamos muito amados. Há, irremediavelmente, em cada um de nós uma dimensão de solidão (…) que nos acompanha desde o nosso nascimento até à morte. Situação solitária portadora de grande fecundidade para o sentido da nossa existência, aberta, em gérmen, a uma comunhão universal. Mais do que estar só, interessa-me aqui o ser só” (Carlos Maria Antunes, Atravessar a própria solidão, Paulinas, Junho 2011).

O padre Carlos Maria Antunes, monge cisterciense do Mosteiro de Santa Maria de Sobrado, na Galiza (Espanha), nasceu em Tomar e foi pároco na diocese de Santarém.

grão de mostarda
Foto: © Mosteiro Cisterciense Santa Maria do Sobrado

domingo, 4 de setembro de 2011

SINAIS DE ESPERANÇA


O bispo que quer reduzir as fronteiras da pobreza
Há vinte anos, sem anúncio prévio, abandonou a diocese (católica) de que era responsável em Espanha, “por amor aos pobres do terceiro Mundo”, como, então, escreveu aos cristãos de Palencia… Nicolás Castellanos decidiu, em 1991, ir viver para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, instalando-se num dos bairros mais empobrecidos daquele país.
“Para mim, a opção pelos pobres sempre foi um elemento chave, referencial, em toda a minha experiência cristã”, disse o ano passado o ex-bispo de Palencia à 21, revista cristã espanhola, a propósito daquela sua decisão. No local que escolheu para viver, a sua primeira “descoberta” foi que centenas de crianças estavam impedidas de frequentar a escola, porque simplesmente não existia. Desta situação nasceu a Fundación Hombres Nuevos, a instituição que, no dizer do bispo Nicolás Castellanos, possibilita pequenos relatos libertadores: “devolver a dignidade, o protagonismo, a auto-estima dos pobres – fazer uma escola, abrir um refeitório, um hospital…”. Ou seja, tudo o que aquele “missionário” (como ele próprio se designa) tem realizado desde 1992 em áreas fundamentais do desenvolvimento humano – Educação (desde casas de acolhimento para crianças órfãs à formação de professores, ou da prevenção do abandono escolar à construção de infra-estruturas); Saúde (da realização de programas de educação higiénica e nutricional à construção estruturas hospitalares); Habitação (um processo que se estende entre a construção de casas e de infra-estruturas, como distribuição de água potável); Emprego e empresas (criação de microempresas de novas actividades e de defesa do ambiente e dos produtos locais).
A decisão do bispo Nicolás Castellanos revela-nos a bondade de um coração que, nas suas próprias palavras, se deixou interpelar pelas “vítimas que sofrem as consequências da acumulação dos ricos”. Porque, a urgência dos humilhados, como ele disse à 21, exige que se reduzam “significativamente as fronteiras da pobreza”.
 Fundación Hombres Nuevos: http://www.hombresnuevos.org

sábado, 3 de setembro de 2011

ESCUTAR A VIDA


Caríssimas e caríssimos,
Na reflexão ESCUTAR A VIDA desta semana, Paulo França faz eco de muitas das discriminações feitas à comunidade imigrante… Dos contrastes de comportamentos e das dores que os comportamentos xenófobos provocam. Antes, leva-nos ao tempo em que Portugal era um país de emigrantes (não deixando de ainda de o ser), gente em busca de “espaços de sobrevivência”, como acontece a todo o ser humano que sai da sua terra.

Com estima fraterna,
grão de mostarda
Discriminações I I

Xenofobia/Racismo/Multiculturalismo

Ao longo da minha vida, tenho acompanhado crianças, adolescentes, jovens e adultos lusos e estrangeiros de diversas origens, sobretudo no ensino público e privado e nos serviços que, em Portugal, têm tido como áreas de intervenção o acolhimento e integração das comunidades migrantes, assim como a gestão pedagógica da educação multicultural no sistema educativo português.
  A dificuldade que as pessoas têm em lidar com imigrantes de etnias e culturas diferentes é uma realidade muito portuguesa. Sendo a comunidade brasileira a maior comunidade imigrante em Portugal, não deixa de ser curioso o facto de haver pouca facilidade em olharmos os brasileiros como falantes da mesma língua que é a nossa. A identidade de um povo define-se também pela sua língua oficial. Não é fácil perceber por que razão o povo português denomina a língua oficial do Brasil por “brasileiro”, tendo em conta que o cidadão comum brasileiro assume naturalmente, na sua identidade, o português como a sua língua materna. No Reino Unido, lugar onde vivi uma curta experiência de migrante durante seis meses, a música oriunda dos EUA é categorizada como música inglesa. Ali assume-se que a música originária dos países falantes de inglês é música inglesa. Entre nós, nas lojas que vendem audiovisuais de música, a música feita no Brasil, ou noutros países de língua oficial portuguesa, é subcategorizada como música brasileira, não se assumindo o português no seu todo, de forma global nas suas diversas variantes. Isto significa que os portugueses não integram na sua identidade, como povo, o Brasil como um país falante de língua portuguesa, mesmo sendo até o país com maior número de falantes de português no Mundo, e que muito tem feito pela difusão da nossa língua, não só através da ficção audiovisual, mas também, e sobretudo, pela Bossa Nova que catapultou definitivamente o português para o mundo do Jazz e Swing anglo-saxónicos, permitindo até a criação de retroversões para inglês de muita poesia escrita e cantada originalmente em português.
    Portugal sempre foi um país de emigrantes. Exportar populações foi uma necessidade dos próprios descobrimentos e consequente colonização dos diversos territórios que foram parte do império português, servindo as pessoas não só de mão-de-obra para o desenvolvimento económico e comercial, mas também para a reprodução, com vista ao aumento da população, em termos demográficos. Ao longo dos séculos, a emigração manteve-se, mesmo após a independência do Brasil e a conquista da democracia em 1974. Nos nossos dias, por razões raras vezes honrosas e boas, muitos portugueses continuam a sair de Portugal, não só para algumas ex-colónias, mas sobretudo para destinos historicamente preferenciais como a França, Alemanha, Suíça, Espanha e Reino Unido, não sendo de esquecer alguns países da América do Sul e da América do Norte.
   Sobremaneira a partir da década de 90 do século passado, Portugal tem registado o acolhimento de imigrantes de diversas origens em busca de uma vida melhor, de trabalho e de dignidade, tal como nós portugueses fizemos e continuamos a fazer. A maior comunidade imigrante actualmente é a brasileira. E a discriminação começa pela não assunção, por parte dos portugueses, da língua oficial do Brasil como uma variante do português europeu, continuando na imagem social que os portugueses têm, enquanto sociedade de acolhimento. Ocorrem comentários: os imigrantes vêm tirar trabalho aos portugueses que cá vivem, que os brasileiros vêm todos das favelas, que são todos falsos, vigaristas e ligados à “indústria sexual”. Quero aqui assumir que sou filho de pais que foram imigrantes no Brasil, irmão de dois irmãos que nasceram no Brasil, bisneto de um tio-avô que viveu e morreu no Brasil e primo em segundo grau de brasileiros.
    Eu próprio tive uma curta experiência de imigrante. Senti, muitas vezes, vergonha de me juntar a outros portugueses imigrantes, devido ao seu comportamento social com hábitos de alcoolismo e consequentes desacatos e provocação pública. Recordo-me que numa tarde de Outono, quando circulava numa avenida central da cidade onde vivia, fui interceptado por uma jovem britânica que, juntamente com outras, fazia inquéritos de rua à população que por ali circulava. A jovem perguntou-me então a minha nacionalidade, quando pronunciei que era português, a mesma jovem virou-me as costas. Mais tarde percebi que muita gente daquela cidade tinha uma imagem pouco abonatória dos portugueses, associando-os aos comportamentos referidos e à burla. Infelizmente, essa imagem social tinha algum fundamento. O menos bom disto de tudo é a generalização que me incluiu somente por ser também português.
   Em relação às outras comunidades imigrantes, a segunda mais representativa é a ucraniana. Pela fisionomia e comportamento social, integrou-se facilmente. Até porque se trata de gente que veio de regimes autoritários e inflexíveis. Este facto resultou que esta gente tenha aceitado facilmente as exigências dos patrões em Portugal.
   A comunidade cabo-verdiana tornou-se na terceira comunidade imigrante mais representativa entre nós. Geograficamente mais próxima de nós, também com grandes afinidades culturais connosco. Todavia, coincide, nesta comunidade, muitos casos de exclusão social que desembocaram em comportamentos dissociais de crimes e violência social suburbana. Esta comunidade, há 10 atrás, queixava-se, junto dos serviços de acolhimento e imigração, ter sido esquecida e maltratada pelo Estado português. Seguem-se os angolanos, moçambicanos, guineenses. Menos representativos entre nós, se comparados com os de Cabo Verde.
Depois vêm os chineses, muito associados à restauração e comércio. Pouco sociáveis com a sociedade de acolhimento, raramente se esforçam em falar português.
E, por último, temos comunidades de origem indiana, paquistanesa, filipina, entre outros. Em regra, estas comunidades também não socializam com a sociedade de acolhimento, trabalham nas obras, no comércio, serviços e restauração.
 Pela experiência que tenho, do “vox populi”, muitos professores, por exemplo, que trabalham na Grande Lisboa, revelam ser racistas de forma latente, queixando-se do cheiro do suor dos africanos, da falta de higiene. Na Primavera de 2011, conheci um jovem de origem africana que sofria imenso por a família da namorada não aceitar que ela tivesse um namorado “preto”. Estamos no séc. XXI. Estas coisas ainda sucedem, mais do que possamos pensar. No nosso sistema educativo continua a fazer muita falta a educação multicultural, a integração da diversidade étnica e cultural nas abordagens pedagógicas, à semelhança do que aconteceu nos EUA e noutros países que entenderam ser os imigrantes parte integrante do seu desenvolvimento. Nas escolas portuguesas continuam a haver professores que falam em “catinga” e “pretos” e associam as mães brasileiras, encarregadas de educação dos nossos alunos, à prostituição. Persiste, portanto, uma grande dificuldade em lidar com a diferença e em ver na diversidade uma riqueza social, cultural e humana. Somos ainda etnocêntricos, pouco abertos aos outros. Lembro-me que há dez anos atrás, morava no Rossio, em Lisboa. No meu prédio, habitavam imigrantes de origem asiática e sul-americana. Recordo-me que, no início, aquela gente revelava um comportamento social pouco simpático, devido ao facto de estarem em choque cultural com a sociedade de acolhimento. Ajudou-me, ao tempo, o facto de estar a estudar educação multicultural na faculdade e de trabalhar no Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural. Não se pode entender educação multicultural sem perceber primeiro a origem dos fluxos imigratórios que compõem as populações-alvo. Sei que há quem considere um timing de três anos para os imigrantes deixarem o choque cultural e mudarem o seu comportamento de forma natural. Foi exactamente o que sucedeu naquele prédio. Somos também esquecidos, porque nos esquecemos que muitas gerações de emigrantes portugueses sofreram e sofrem ainda hoje a exploração, discriminação e a humilhação no trabalho lá fora. Talvez andemos adormecidos. De facto, somos ainda, e muito, um país de emigrantes. A melhoria das condições de vida do Portugal democrático não se registou tão integradora do seu povo como era expectável, nem sequer no contexto político da União Europeia. Há poucos anos, já tínhamos um êxodo de portugueses para o estrangeiro ao nível do tempo do Estado Novo.
  Vamos parar para pensar e olhar para o chão que pisamos e tentar perceber quem asfalta as nossas estradas, olhar para cima e perceber quem constrói as nossas pontes (muitas vezes com o sacrifício da própria vida em graves acidentes de trabalho), viadutos, prédios, quem nos serve melhor à mesa, quem limpa os ministérios, os bancos, os hospitais, etc. Porém, ninguém gosta de ser discriminado. Continuamos a não amar os outros como a nós mesmos e a não conseguir olhar os asiáticos, os sul-americanos, os africanos como seres humanos e centramo-nos na sua etnia, língua, país, religião. No meu dia-a-dia, continuo a defender esta gente porque sei que a tendência natural do ser humano, em qualquer parte do globo, é entender-se, independentemente da língua, da etnia, da nacionalidade, do género, das opções políticas e da orientação sexual. Além disso, estou convencido que o nosso país tem evoluído muito graças à vinda e permanência dos imigrantes, não só económica, mas também social, cultural e humanamente. Sabe-se que o futuro económico e demográfico da Europa depende muito desta gente, porque a população europeia envelheceu e, como não nascem crianças em número suficiente, falta população em número suficiente no Velho Continente.

Paulo França

domingo, 28 de agosto de 2011

ESCUTAR O AMOR


 
“Considera o teu próximo na totalidade da sua existência e não apenas numa etapa da sua vida”


(irmão Roger, Las fuentes de Taizé – Dios nos quiere felices, PPC, 2003, Madrid)



Foto: © Taizé
 



sábado, 27 de agosto de 2011

DE QUE MUNDO SOMOS?


Caríssimas e caríssimos,
em Junho passado, Luísa Alvim e Valentim Gonçalves iniciaram um diálogo a convite do grão de mostarda, sobre o tema De que mundo somos?. Como então escrevemos, esta proposta constituía um desafio a ambos para que se interrogassem sobre o mundo em que vivemos. O Mundo com maiúscula. Ou seja, nas suas diversas realidades.
Escritas em jeito de cartas, estas reflexões quinzenais constituíram ecos de esperança na bondade humana, sem nunca deixarem de olhar os “lados sombrios” do quotidiano. E é nas propostas de confiança quer ambos foram tecendo ao longo deste tempo, que hoje alicerçamos a reflexão desta semana, escrita pelo grão de mostarda, como ficou combinado, após quatro cartas trocadas entre Luísa Alvim e Valentim Gonçalves.
Com estima fraterna,
grão de mostarda
Luísa Alvim, cristã empenhada na paróquia católica de S. Victor, em Braga – os seus “diários” da catequese no Facebook constituem verdadeiras parábolas sobre o Amor Infinito --, é também membro do Metanoia – movimento de profissionais católicos. Técnica superior (área de Biblioteca e Documentação), na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão – actualmente a trabalhar na Casa de Camilo - Museu e Centro e Estudos –, diz-se uma “sonhadora do impossível”.
Valentim Gonçalves é pároco da comunidade católica de S. Pedro do Prior Velho, desde a sua constituição como paróquia, em Outubro de 1999. Porém, a população do Prior Velho (concelho de Loures) já conhece este missionário do Verbo Divino desde há duas décadas, quando começou a empenhar-se no serviço aos moradores da Quinta da Serra – bairro ilegal, constituído maioritariamente por imigrantes africanos. Vice-provincial da sua congregação e membro da Comissão de Justiça e Paz dos Institutos Religiosos, ainda desenvolve trabalho na antiga Quinta do Mocho (actual Terraços da Ponte, em Sacavém), igualmente habitado por uma imensa população de imigrantes africanos.



Carta do grão de mostarda para Luísa Alvim e Valentim Gonçalves
Caríssima Luísa e caríssimo Valentim,
“Quando sonhamos sozinhos, tudo não passa de um sonho. Mas, quando sonhamos juntos com alguém, então o que se sonhou começa a concretizar-se”. No seu livro Was ich glaub (1), Hans Kung cita estas palavras do carismático bispo brasileiro Hélder da Câmara, para ilustrar a sua convicção no sonho que alimenta, e logo a seguir assim expressa: “Também o meu sonho é sonhado por muitos, a minha visão de um cristianismo reconciliado, de paz entre as religiões e de uma autêntica comunidade de nações é partilhada por muitos. Do mesmo modo que Martin Luther King, não viverei para ver a concretização da minha visão. Mas também não a levarei comigo para a sepultura. Será propagada pelo desejo que gerações inteiras alimentam de um mundo mais pacífico, mais justo, mais humano. Nisso eu creio, nisso eu espero”.
Depois de se tornar a ler as vossas cartas, o sentimento que nos invade é o mesmo de Hans Kung: o desejo de um “tempo novo”, de uma humanidade mais fraterna não está abandonado… Relendo cada ideia, cada experiência que, ao longo de mais de dois meses, partilhastes connosco, uma convicção ganha raízes mais profundas em nós: é possível fazer desta Terra um lugar habitável. É possível uma visão esperançosa e confiante na vida.
Não podemos ignorar os sérios momentos de desumanização a que estamos a assistir – alguns recordados nas vossas cartas –, quer sejam de âmbito nacional ou internacional, mas a verdade é que também nos chegam sinais de esperança. Em cada semana, recebemos notícias de pessoas que, no silêncio do quotidiano, alimentam a bondade de coração, tornando-se dom em favor dos injustiçados, dos desprovidos de meios humanos ou materiais, dos abandonados. Chegam-nos ecos de solidariedade fraterna: uma médica, que após o trabalho no hospital, dedica o seu tempo a cuidar de uma octogenária a viver só, que não é sua familiar; um homem que se empenha em congregar os irmãos para que apoiem um outro irmão, acabado de sair da cadeia, mas a viver problemas de saúde e de estruturação interior; vizinhos que, no anonimato, auxiliam com alimentos a família de um ex-alcoólico, agora em busca de trabalho; um casal sem filhos que aceita acolher “tornar seu filho” um menino da Roménia, abandonado pela mãe num orfanato daquele país… e ainda outros que gastam o tempo a acompanhar e a escutar pessoas sós ou doentes, que muitas vezes, o que mais esperam é poderem contar com uma palavra de confiança e uma presença amável…
E aqui recordamos uma das cartas da Luísa Alvim (17 Julho), numa das ideias que mais sensibilizaram os nossos corações: “ (…) cada um de nós é tocado para exercer o seu modo de estar no mundo de forma exemplar (…). Intervir no nosso pequeno mundo, pode fazer a diferença posteriormente no todo, no esforço conjunto (...). A nova democracia terá que ser benevolente em si mesma”. Estas palavras levam-nos à interrogação: Como buscar um sentido para a vida? Ou seja, como me tornar “uma pessoa humilde interiormente que não deixe de se questionar com espírito crítico” e intervenha “igualmente em favor de outros, em favor dos que não têm voz ou não são escutados” (Hans Kung)?
Na resposta que o nosso coração procura, vamos pressentindo que o ser humano, como escreveu o irmão Roger, não foi criado para a desesperança, mas sim para a confiança. E se tudo começar na confiança, descortinaremos, pouco a pouco, caminhos para o momento crítico que vivemos, e assim identificado pelo Valentim, na sua carta de 9 de Agosto: “O escândalo do nosso mundo não está na falta de meios para viver, mas na ausência de motivação para partilhar, sabendo que o pouco quando repartido sacia mais do que o muito retido”. Mas é nos períodos duros da história da Humanidade que, muitas vezes, basta “um punhado de mulheres e homens, dispersos sobre a Terra” para “inverter o curso de certas evoluções históricas” (irmão Roger). Saibamos nós acolher o milagre do Reino de Deus – propõe o Valentim, na carta acima citada, ao recordar-nos o relato da “multiplicação dos pães”, no evangelho de Mateus (2), e no qual Jesus solicita aos discípulos que repartam os seus “cinco pães e dois peixes” por mais de cinco mil pessoas…
De que mundo que somos? Por entre as nossas noites, buscamos viver na confiança de que o nosso sonho é também sonhado por muitos, como acredita Hans Kung.
Com estima fraterna,
grão de mostarda
(1) Usamos a versão espanhola Lo que yo creo (Editorial Trotta, Madrid, 2011)
(2) ver Mateus 14, 13-21
Foto: © Taizé

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

PENSAMENTOS EM BUSCA

 
Dois discípulos aproximaram-se de Jesus e pediram-lhe lugares de destaque… Jesus, porém, respondeu-lhes: “Os grandes do mundo submetem os povos e os poderosos impõem a sua autoridade. Entre vós, porém, não deve ser assim: o que quiser ser grande, que seja servidor, e quem desejar ser o primeiro que se faça escravo de todos” (ver Marcos 10, 35-45).