sábado, 25 de fevereiro de 2012

DE QUE MUNDO SOMOS?

Caríssimas e caríssimos,

Um homem decidiu colocar, diariamente, uma flor, juntamente com uma mensagem, no Metropolitano de Lisboa...  (ver: pt-br.facebook.com/SINALDEALARME).

A reflexão De que mundo somos? que, nesta semana, Luísa Alvim partilha com o pe. Valentim e connosco (ver ANEXO), remete-nos, a partir daquele gesto simbólico, para a urgência “na confiança das boas obras por nós praticadas”, uma felicidade comungada por todas e por todos que desde o mais fundo da noite da humanidade ansiamos. Esta felicidade reconhecemo-la nas bem-aventuranças que Luísa Alvim recupera – “Enxugando as lágrimas dos que choram e penam com tantas dificuldades, o bem que muitos fazem, realiza na Terra aquela promessa divina, orvalho de esperança”. E a noite da humanidade será iluminada quando nos decidirmos a que “as bem-aventuranças sejam a nossa linha de metro diária”.

Fraternalmente,

grão de mostarda


Luísa Alvim, cristã empenhada na paróquia católica de S. Victor, em Braga – os seus “diários” da catequese no Facebook constituem verdadeiras parábolas sobre o Amor Infinito --, é também membro do Metanoia – movimento de profissionais católicos. Técnica superior (área de Biblioteca e Documentação), na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão – actualmente a trabalhar na Casa de Camilo - Museu e Centro e Estudos –, diz-se uma “sonhadora do impossível”.
Valentim Gonçalves é pároco da comunidade católica de S. Pedro do Prior Velho, desde a sua constituição como paróquia, em Outubro de 1999. Porém, a população do Prior Velho (concelho de Loures) já conhece este missionário do Verbo Divino desde há duas décadas, quando começou a empenhar-se no serviço aos moradores da Quinta da Serra – bairro ilegal, constituído maioritariamente por imigrantes africanos. Vice-provincial da sua congregação e membro da Comissão de Justiça e Paz dos Institutos Religiosos, ainda desenvolve trabalho na antiga Quinta do Mocho (actual Terraços da Ponte, em Sacavém), igualmente habitado por uma imensa população de imigrantes africanos.


Viva caríssimo Valentim!

Aristóteles definindo a felicidade, chama-lhe a virtude em acção, como fazendo-nos sentir que, sem que a nossa alma repouse na confiança das boas obras por nós praticadas, não há nem pode haver felicidade possível neste mundo.

Foi propositado ir às antigas fontes procurar uma fundamentação para os dias atuais, pois gostaria de hoje, nesta carta, olhar a realidade com mais confiança na esperança e realçar que o mundo está sustentado em atos de benevolência ímpar e anónima, desde sempre, fruto do trabalho de muitas almas de semblante repleto de luz de um bem supremo, que se multiplicam em gestos de mil confortos para os desventurados da vida.
Enxugando as lágrimas dos que choram e penam com tantas dificuldades, o bem que muitos fazem, realiza na Terra aquela promessa divina, orvalho de esperança, que nas trevas de todo o infortúnio, a vida será saciada e risonha: “Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.” (1).

Os filósofos e outros pensadores dedicaram muito do seu tempo a discutir teorias de política humanista e políticas públicas, podemos até conseguir entrever quais os mais autênticos que defenderam a verdadeira democracia que poderá igualizar a nossa sociedade. Mas, como sustentava, na sua última carta, as pessoas terão que viver “a cidadania como atitude comprometida com o viver em comum e não como peões jogados apenas em momentos de eleições”. As Igrejas também se posicionam nesta corrida pelo bem do próximo, mas como bem afirmava em relação à Igreja Católica “tem havido muita religião e pouca fé; muita religião ligada ao dever e pouco ligada ao melhor legado que Jesus nos deixou e que foi a sua proximidade e a sua preocupação pela vida/felicidade dos outros.”

Foi título do Público, no dia 12 fevereiro: “A pobreza não acontece de repente, vai corroendo a vida devagarinho” (2), narra histórias de vida daqueles que vivem na fronteira da pobreza e se não houver nenhum “espírito de comunidade”, as situações de precariedade vingarão. Estou convencida que a instauração deste novo mundo, que Jesus inaugura, terá que ser urgentemente protagonizada com um pensar coletivo, um “espírito de comunidade” que pense o bem comum, que penso no “nós” da comunidade de hoje.

Gostaria de salientar um gesto, que pelo seu simbolismo, e por não ser um exemplo de prática assistencialista característico das nossas Igrejas, é um paradigma sobre o destinar a felicidade ao outro: o projecto “Sinal de Alarme”, que tem andado a distribuir flores e mensagens de amor pela linha azul do Metro de Lisboa, há mais de dez meses. Todos os dias, uma flor viaja clandestinamente no metro de Lisboa, porque um homem, de nome José, propôs-se a espalhar o amor pela capital durante um ano, com flores e poesia para quem as quiser apanhar, sem nunca falhar um único dia. A flor e a mensagem são colocadas no sinal de alarme da última carruagem do metro. 

Porque é mesmo um sinal de alarme: falta amor, falta espalhar felicidade aos outros, falta saciá-los com o que temos de melhor (e não com o que nos sobra), falta oferecer o riso e a alegria para que as bem-aventuranças sejam a nossa linha de metro diária. 

Ditosos são os que dispõem da força, da energia e do coração benevolente, que Deus lhes deu, para colocar a virtude em ação, em teorias e em práticas de salvação mútua.

Abraço fraterno,

Luísa Alvim, que acredita que será possível colocar uma “flor e uma mensagem de amor” no sinal de alarme do nosso irmão. 

([1]) Lucas 6, 21

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

AO ENTARDECER


Os discípulos procuraram Jesus e disseram-lhe “Nós e os fariseus jejuamos, e por que não jejuam também os teus discípulos?” Jesus, porém, respondeu-lhes: “Podem os convidados de um casamento fazer luto enquanto o noivo está entre eles?”. (ver Mateus 9, 14-15)

“Não dúvida que Jesus não ensinou aos seus discípulos normas religiosas sobre o jejum (...). Jesus deseja é que sejamos capazes de partilhar o nosso pão com aqueles que o não têm. Porque isso é fonte de abundância (...).
O projecto do Reino de Deus é como uma festa de casamento, um banquete régio (Mateus 22, 10; Lucas 14, 15-24), no qual entram todos, “maus e bons” (Mateus 22, 10) . Deus é o primeiro que deseja para todos, antes de tudo, a nossa felicidade. Uma felicidade da qual ninguém fica excluído.



Ilustração: ©Dila Rodrigues


AO ENTARDECER… espaço de busca no final do dia, a partir de pequenos comentários do teólogo espanhol José María Castillo – http://blogs.periodistadigital.com/teologia-sin-censura.php –, sobre as propostas de Jesus. Extractos retirados do seu livro “La religión de Jesús – Comentarios al evangelio diario”, editado pela Desclée De Brouwer (Bilbao), 2011.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

PENSAMENTO EM BUSCA


A proposta de Jesus, “Quem quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servidor de todos” (Marcos 9, 35), é desconcertante. Mas esta atitude torna possível relações humanas que dignificam a Vida. 


  
grão de mostarda

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ESCUTAR A VIDA

Jorge Guerrero nasceu no Paraguai. Depois de um curso profissional na “Teach a Man to Fish”, pretendia seguir Agronomia. Todavia, não tinha os meios financeiros suficientes para continuar a estudar. Mas com uma ideia, nascida em resultado do que aprendera, conseguiu encontrar uma solução: Jorge contratou a criação de uma horta orgânica com um lar de idosos possuía terrenos agrícolas que não eram trabalhados. Parte da produção é entregue para o sustento dos idosos e o que resta da produção, após vender no mercado, permite-lhe a criação de um fundo para prosseguir Agronomia. E o sucesso da marca que ele criou para os seus produtos, a Biogran, foi tão significativo que, agora propõe-se a criar uma empresa... 

São histórias como esta que dão sentido à “Teach a Man to Fish” – instituição de solidariedade social que, em países africanos e da América Latina, “ensina a pescar”, proporcionando a muitos seres humanos, de facto, meios de vida verdadeiramente sustentáveis. Foi precisamente a partir do conceito “dar um peixe a um homem permite-lhe comer por um dia, mas ensiná-lo a pescar, permitir-lhe-á comer todos os dias da sua vida”, que aquela instituição, através de projectos de Educação, leva jovens de países em desenvolvimento a construírem o seu próprio futuro.

Paulo França escolheu o exemplo desta instituição de solidariedade social para a reflexão do Escutar a vida desta semana (ver ANEXO). Que benefício teria, no nosso país, uma ideia semelhante, tendo em conta a nossa dependência do exterior? E que possibilidades de futuro permitira aos jovens desempregados, quando o sector do nosso país se vê praticamente reduzido ao sector terciário?  Nos momentos de indefinição, quando a urgência exige reencontrar caminhos humanizadores, é possível transformar exemplos como este em incentivo?
Fraternalmente,

grão de mostarda

Teach a Man to Fish

Em Novembro passado, o jornal “Metro” publicou um artigo sobre educação que relatava uma experiência pedagógica que tem vindo a ser desenvolvida principalmente no Paraguai, estendendo-se a diversos países como o Uganda, a Nicarágua, o Quénia ou a Bolívia, por uma instituição de solidariedade social designada por Teach a Man to Fish.

Este novo conceito de escola cria microempresas dentro das escolas (agrícolas) com dois objetivos essenciais: criar nos estudantes competências empresariais através da prática do trabalho, garantindo, alongo prazo, a sustentabilidade económica da própria escola com os lucros obtidos pelas empresas existentes dentro da escola, fazendo face à crescente perda de fiabilidade das políticas financeiras dos Estados que tem vindo, por via dos seus sucessivos governos, a desinvestir internacionalmente na educação.

Os curricula integram as ciências exatas e humanas e a prática da agricultura, laticínios, entre outras. Estas atividades sustentam o pagamento das propinas dos estudantes que vão fazendo o seu curriculum estudando e trabalhando. Desta forma, chegam ao final do curso, que pode conferir licenciatura, com grandes oportunidades de colocação nas empresas fora da própria escola. 

Além de ficar garantida a sustentabilidade independente da escola através da produção das suas empresas, têm sido criadas novas empresas geradoras de novos empregos pelos próprios alunos. Estes alunos pretendem tornarem-se líderes com capacidade de retirar as comunidades rurais da pobreza e da exclusão.

O valor do trabalho é um conceito inerente e essencial. Aqueles estudantes têm um esforço intelectual e desgaste físico no trabalho empresarial que desenvolvem durante a sua formação e aprendizagem. 

Este conceito de escola adequa-se ao meio real e às necessidades das pessoas, onde todos são parte integrante no sucesso. 

No mesmo ano (2011), a Teach a Man to Fish lançou um desafio chamado “international school enterprise challenge” que consistiu em colocar à prova a capacidade de 600 escolas em criar a sua própria empresa, mesmo sem ajuda financeira. Surgiram, então, projetos de produção de diversas variedades de chá do Nepal, malas de ganga reaproveitada das Maurícias e pensos higiénicos feitos a partir de bananeiras do Uganda.

Procuremos pensar sobre a nossa escola básica, secundária e superior, em Portugal, e imaginemos a utilidade de se ensinar e aprender com base na filosofia “Teach a Man to Fish” (1), numa fase em que a nossa integração na União Europeia acabou com o nosso setor primário e secundário e, reduzindo-nos, enquanto país, ao setor terciário, acabou por desequilibrar a nossa balança comercial, tornando-nos num país dependente do exterior, à mercê dos interesses especulativos das economias mais poderosas.

(1)  http://www.teachamantofish.org.uk

Paulo França