sábado, 7 de abril de 2012

Carta em Busca - Páscoa 2012


Caríssimas e caríssimos,

O relato da “multiplicação dos pães” é tema da Carta em busca... para esta Páscoa (ver ANEXO).

O desafio lançado por Jesus aos seus discípulos – “Dai-lhes vós mesmos de comer” – mantém-se actual (ver Marcos cap.6, vers.30-44). Aquele banquete da partilha continua a despertar os nossos corações, ao tornar perceptível uma realidade: a solidariedade fraterna é o “espaço” da abundância. Uma abundância ensaiada a partir da confiança no ser humano...

A partir do início do ano, reflectimos sobre um texto do evangelho que nos convoque à mudança de coração e a um novo comportamento perante os acontecimentos. E, por ocasião da Páscoa, partilhamos essa reflexão com todos vós. Neste relato de Marcos, Jesus convida-nos a avaliar a nossa situação concreta e, desde aí, decidirmos a resposta a dar à sua proposta.
E convosco partilhamos esta Carta em busca... Páscoa 2012
grão de mostarda



Carta em Busca...
Páscoa 2012


Eram tantas as pessoas que procuravam Jesus que ele e os seus discípulos não tinham tempo para comer. Então, Jesus disse-lhes: “Vamos a um lugar despovoado, para descansar um pouco”. E partiram numa barca para um local isolado. Dando-se conta, a multidão que o procurava correu até ao local, chegando antes deles. Ao desembarcar, Jesus ao ver todas aquelas pessoas, teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor, e ensinou-lhes muitas coisas. Entretanto, quando anoitecia, os discípulos disseram a Jesus: “A hora vai avançada e o sítio é isolado. O melhor é que os mandes embora, para que vão às aldeias comprar que comer”. Mas Jesus respondeu-lhes: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles, porém, contestaram: “Precisamos de duzentos denários para comprar o pão necessário”. E Jesus retorquiu: “Quantos pães têm vocês? Ide ver”. Os discípulos, depois de olharem os cestos, disseram: “Temos cinco pães e dois peixes”. Então, pedindo-lhes que dissessem à multidão para se sentar na relva, Jesus pegou nos pães, deu graças, e, partindo-os, entregou-os aos discípulos para que os distribuíssem. E fez o mesmo com os peixes. Todos comeram e ficaram satisfeitos, tendo as sobras recolhidas enchido doze cestos. No total, eram cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças. (Marcos 6, 30-44)

Esta passagem do evangelho de Marcos poderia ser chamada de parábola da confiança. Uma confiança mútua, entre Jesus e a multidão que o segue, atónita. Não por que Jesus actue de forma espectacular, de modo a deixar inibidos aqueles que o escutam. Mas sim pela proximidade e cuidado que demonstra por cada ser humano.

Jesus sente necessidade de permanecer num lugar mais tranquilo com os discípulos: um tempo antes, enviara-os a anunciar por diversas povoações a proposta do Reino de Deus.
As pessoas que seguem Jesus centram nele as suas esperanças, perante a vida difícil e sem alternativas que são forçadas a suportar (1). Quem corre pela margem atrás de alguém que se desloca numa barca, para o alcançar na ocasião do desembarque, é porque está seguro da importância dessa pessoa, depositando nela uma confiança inabalável. E mesmo que o relato evangélico seja uma hipérbole, de modo a dar maior expressão ao conteúdo da mensagem que pretende transmitir, é nesta deslocação da multidão que a narrativa adquire o primeiro sinal de confiança – aquelas pessoas sabem que Jesus nunca as rejeitará, como Marcos confirma de imediato.

“Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão…”. Jesus está atento; a realidade humana não lhe passa ao lado, nem lhe é indiferente. Ele olha as pessoas que o procuram, deixa-se tocar por esse olhar e compadece-se. Esta compaixão leva-o a tomar uma atitude: tornar-se próximo, “ensina-lhes muitas coisas”. Ou seja, compreende a necessidade de alimento que as pessoas têm. Jesus não as torna dependentes, transmite-lhes uma visão libertadora da vida, revelando-lhes um modo diferente de se relacionarem com Deus e com o ambiente de opressão que as cercava (2). Afinal, a confiança que todas aquelas pessoas depositavam naquele homem não fora defraudada, porque Jesus revelou ter compaixão...

Uma nova confiança...

O tempo passa, parece que nem Jesus nem a multidão dão por isso, tão intensa deveria ser a comunicação. São os discípulos que reagem: “O lugar é deserto e a hora adiantada, manda-os embora para irem aos campos e aldeias comprarem alimentos”. Esta intervenção dos discípulos vem cortar aquele clima de proximidade, e parece ter contornos de desculpa para se desembaraçarem daquela multidão.

A questão do dinheiro necessário para comprar alimentos para tão grande número de pessoas é o único argumento que os discípulos encontram para colocar a Jesus (3). Ainda não estavam despertos para a radicalidade da proposta de Jesus. “Para Jesus, o Reinado de Deus implica uma transformação de todas as relações humanas e sociais.

O seu projecto era o de promover um movimento messiânico em que a experiência de Deus se traduzisse na realização crescente da fraternidade (...) [Este] radicalismo de Jesus nasce de uma experiência de Deus que não leva a endurecer as exigências da lei [ao contrário do que impunham os fariseus], mas sim a fomentar a proximidade com as pessoas concretas e a solidariedade com as suas necessidades” (4).

Optando por despedir toda aquela gente, os discípulos revelam-se pela normalidade do “cada um por si”. Contrariando este modelo calculista, Jesus coloca-lhes um desafio: “Dai-lhes vós mesmos de comer… quantos pães tendes?”. Jesus convida-os a uma resposta de compromisso pessoal. Olhar para si mesmo, para a sua situação concreta e, desde aí, dar uma resposta. Não ceder à tentação de pensar que somente os outros é que têm responsabilidade e meios para o fazer.
Desafiados por Jesus, os discípulos decidem partilhar os “cinco pães e dois peixes”. E assim se dá lugar a uma relação de confiança entre todos: cada um dispõe-se a repartir o seu pequeno farnel, cada um decide acreditar que a sua humanidade só se humaniza numa atitude fraterna e solidária, geradora de abundância... É assim que o milagre acontece: “comeram até ficarem saciados. E havia ainda doze cestos com bocados”. 

Com justificações à primeira vista lógicas e sensatas, corremos o risco de desfazermos relações que se estão a construir desde o mais profundo, não colocando ao serviço dos outros todas as nossas possibilidades... Foi assim que os discípulos se comportaram, quebrando a confiança entretanto estabelecida entre Jesus e a multidão, que o seguia e escutava. Aquelas pessoas tinham sido tratadas por Jesus com ternura e compaixão. Conheciam muito bem o projecto de Jesus – “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (João 10, 10) –, caso contrário não teriam corrido atrás dele, quando se aperceberam da sua saída no lago.

A Jesus unicamente o preocupava o ser humano em si mesmo e as suas circunstâncias concretas. Esta conduta tocou muito fundo o coração e a memória das primeiras comunidades cristãs. De tal modo que, nos relatos evangélicos, os gestos determinantes da actividade de Jesus decorrem fundamentalmente entre gestos restituidores de saúde e refeições partilhadas – aquilo que é fundamental para tornar possível uma vida de felicidade (5). Esta dimensão humana do percurso de Jesus revelou-se uma novidade e uma autêntica esperança para os últimos da Palestina do séc. I.

Uma nova fraternidade...

“Jesus focalizou absolutamente tudo no homem, nas relações de serviço e de amor”, pois, “se ‘Deus é amor’, resulta evidente que a sua presença se torna visível, antes de tudo, dentro da imanência histórica, ali onde o amor adquire a sua singular e derradeira imagem: no amor inter-humano” (6). Só a partir de uma solidariedade fraterna será possível um outro relacionamento humano. “Porque, na verdade, não há futuro sem solidariedade” (7).

“Dai-lhes vós mesmos de comer”. Estas palavras de Jesus, dirigidas aos discípulos, contêm em si o gérmen de uma nova fraternidade, de uma nova confiança. Como actualizar esta proposta de Jesus?

Muitas vezes, permitimos que os nossos corações se deixem corroer por discursos desmobilizadores que nos querem fazer acreditar na nossa insuficiência para percorrer caminhos de uma nova confiança. E, então, tudo parece conjugar-se para se confundir o ser com o ter, para se acreditar que é possível permanecer no “salve-se quem puder”, instalando nas consciências a ideia de que o motor do crescimento continua a ser a acumulação de capital... para que, mais tarde, resposto o equilíbrio financeiro, seja possível distribuir os “dividendos” pela imensa multidão que, entretanto, se viu desapossada da sua dignidade de seres humanos e dos seus direitos de cidadãos (8).

O tempo presente pode também ajudar a renovar um modelo pessoal de vida, descobrindo que a sobriedade e a partilha geram, sempre, abundância. E hoje, apesar dos desertos que se pretendem impor, é possível encontrar quem optou por ensaiar viver na confiança, sabendo que à bondade de coração nunca o mal se consegue sobrepor – no quotidiano, se o olhar se voltar atentamente para pequenos acontecimentos, reconheceremos, por vezes de modo imperceptível, muitas pessoas que buscam sarar feridas, desatar situações de injustiça, impulsionar caminhos solidários e novos modelos de vida colectiva –, mesmo que os acontecimentos do tempo presente pareçam ofuscar a realidade que nos aguarda. E a realidade que nos espera é uma nova solidariedade (9).

Ao perguntar aos discípulos quantos pães tinham nos cestos, Jesus estava precisamente a falar-lhes da possibilidade desta nova experiência solidária, de um novo modelo de relacionamento humano, que o diálogo evangélico deixa perceber de modo tão pedagógico.

Quando os discípulos, sob o pretexto de estar a anoitecer, dizem a Jesus que despeça toda aquela multidão, ele pede-lhes que se deixem “interpelar pela necessidade alheia”. Por isso lhes diz: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Mas eles logo argumentam com as dificuldades: “Tens ideia quanto custa dar de comer a este gente toda?”. E Jesus, em vez de se deixar conduzir por aquela “dobragem mesquinha sobre si mesmos”, apela a “uma atitude de responsabilidade para com os outros”, perguntando-lhes: “Ide ver quantos pães tendes nos cestos”. E, quando eles dizem que apenas tinham cinco pães e dois peixes, Jesus desafia-os a ousarem experimentar a sobriedade. Pois, “só quem é sóbrio é que também poderá ser solidário”.

Cumpria-se assim a parábola da confiança.


(1)      As classes superiores incluíam a casa real de Herodes, Pilatos, o representante de Roma, e todo o séquito que vivia à sua volta, cuja riqueza tinha origem numa pesada tributação fiscal. Estes repartiam a vida luxo e esplendor com a aristocracia, representada pelas famílias dos sumos sacerdotes, que vivia do dízimo e do imposto do Templo, e ainda nobreza laica, os chamados anciãos, que possuía a maior parte das terras. Toda esta elite vivia apoiada na tropa, encarregue de reprimir as permanentes revoltas contra a presença romana. A imensa maioria da população, a quem Jesus se dirigiu privilegiadamente, dependia da vontade de cada um daqueles poderes para sobreviver. Os imensos impostos que sobrecarregavam a vida das pessoas, leva-as a muitas vezes ter de abandonar as terras; outros viviam vagueando em busca de algum trabalho, para um sustento imediato. A esta inúmera multidão, deve ainda juntar-se os doentes, entre os quais se podem incluir os doentes mentais, que devido à concepção judaica que afirmava o corpo como morada do espírito, eram considerados possuídos de espíritos impuros (demónios). Todas estas pessoas vagueavam e mendigavam. A eles junte-se ainda os órfãos e as viúvas, desamparados à sua sorte... e ainda os considerados pecadores, “uma classe social bem definida”, que incluía os eu tinham “profissões pecaminosas ou impuras: prostituas, cobradores de impostos (publicanos), ladrões, pastores, usurários e jogadores”. Ver: Albert Nolan, Jesus antes do cristianismo (Paulinas Editora, Prior Velho, Portugal, 2010)
(2)     Compaixão é uma das palavras mais usadas ao longo dos relatos evangélicos, quando se referem ao relacionamento de Jesus com as pessoas. E mesmo quando não é usada, podemos senti-la nas atitudes de Jesus. Permanentemente Jesus diz: “Não chores”, “Não te aflijas”, “Não tenhas medo” (ver Marcos 4, 40; 5, 36; 6, 50; Mateus 6, 25-34 e Lucas 10, 41). Nas parábolas do bom samaritano (Lucas 10, 33) e do filho pródigo (Lucas 15, 20), o que distingue o samaritano e o pai é a compaixão, que mesmo assim é considerada, pelos especialistas, não suficiente para exprimir a emoção de Jesus. Porque o verbo grego splagchnizomai, usado em todos evangélicos, deriva do substantivo splagchnon, que significa intestinos, entranhas... O verbo expressa, assim, a reacção visceral, o sentimento que brota do mais fundo da própria pessoa. Ver: Albert Nolan, Jesus antes do cristianismo (Paulinas Editora, Prior Velho, Portugal, 2010)
(3)     É precisamente o egoísmo que leva os discípulos a confrontam Jesus: “Devemos ir comprar duzentos denários de pão para dar-lhes de comer?”. Aquele dinheiro todo não seria muito para alimentar cinco mil pessoas, mas era bastante para quem o desembolsava: correspondia ao salário de duzentos dias de um trabalhador. (Luís Alonso Schökel, Bíblia do peregrino, Paulus, São Paulo, Brasil, 2002)
(4)     O teólogo Rafael Aguirre anota que a acção de Jesus “converte-se em radicalidade para descobrir o próximo e, sobretudo, para revelar essa dimensão – tantas vezes ocultada, porque denuncia e interpela – que é o sofrimento dos mais necessitados.” La mesa compartida – Estudios del NT desde las ciencias sociales (Sal Terrae, Santander, Espanha, 1994)
(5)     “A Jesus conhecemo-lo, identificamo-lo e encontramo-lo ali onde o sofrimento humano é aliviado, onde se devolve a alegria aos que se vêem limitados, privados da sua integridade e da sua dignidade”, é assim que o teólogo espanhol José María Castillo identifica o modo de agir de Jesus com as pessoas. La humanización de Dios (Editorial Trotta, Madrid, Espanha, 2010)
(6)     Andrés Torres Queiruga, Creo en Dios Padre – El Dios de Jesús como afirmación plena del hombre (Sal Terrae, Santander, Espanha, 1986)
(7)     No seu livro Não há futuro sem solidariedade (Paulinas Editora, Prior Velho, Portugal, 2009), Dionigi Tettamanzi, bispo de Milão (Itália) faz uma reflexão sobre as causas da actual situação financeira internacional e propõe, a partir de uma leitura evangélica, novos comportamentos, quer a nível dos Estados, das empresas e dos cidadãos, individualmente. Perante sinais evidentes de pobreza, resultantes do colapso financeiro, o bispo Tettamanzi, decidiu, em 2008, instituir na sua diocese um fundo de um milhão de euros destinados ao apoio a desempregados, cuja situação não lhes permita manter com dignidade a sua família. O fundo, proveniente do valor doado nas declarações de IRS para instituições de caridade da diocese, de ofertas, de capitais da diocese e das poupanças do próprio bispo, permanece activo, em resultado de uma solidariedade permanente.
(8)     O bispo Tettamanzi, no seu livro escreve: “Poderá considerar-se ética uma economia que, no centro, não põe o homem, mas o lucro a obter a todo o custo? Que responsabilidade tem – sob as dificuldades do momento presente – aquela finança virtual que perdeu de vista a economia real centrada no bem-estar da comunidade e dos indivíduos? Não tenho dúvidas: a ética – e o primeiro valor ético é o respeito pela pessoa em todas as suas dimensões – não é um acrescento à economia, mas é o seu fundamento. Quando se espezinha a ética, quem, mais cedo ou mais tarde, haverá de pagar as suas gravíssimas consequências será sempre o homem, a sociedade, a natureza e a própria economia!”
(9)     Sobre o discernimento necessário para uma solidariedade concreta, o bispo Tettamanzi anota: “Não poderemos ser solidários se não formos sóbrios; de outro modo, apenas se partilhariam as sobras do máximo das minhas ou das nossas necessidades. Pelo contrário, quem é sóbrio, em todas as coisas se deixa interpelar pela necessidade alheia; considera-a atentamente, encarrega-se dela e, tendo-a por base, decide o que lhe poderá bastar. Não é uma dobragem mesquinha sobre si mesmo; mas antes, pelo contrário, uma atitude de responsabilidade para com os outros! Por isso, só quem é sóbrio é que também poderá ser solidário.”



ESCUTAR A VIDA


Caríssimas e caríssimos 

Da bondade de coração é que nasce a CONFIANÇA... na Vida, na humanidade. No fundo, na bondade de coração “aprendemos a estimar este milagre de estarmos vivos... sem perdermos a inquietação pela dor dos que não a têm”. 

Em tempo de celebrar a VIDA pela vida de Jesus, o vivente, fundada na bondade e na confiança, Paulo França conduz-nos, na reflexão Escutar a vida, desta semana, pelos percursos da bondade de coração. Nestes caminhos, compreendemos o sentido das palavras do irmão Roger: “A bondade de coração é um inestimável estímulo à acção”.

Hoje ainda publicaremos ainda a Carta em busca..., que durante o dia estaremos em comunidade a partilhar, para que se torne “agenda” do nosso quotidiano até à Páscoa de 2013. O tema é “a multiplicação dos pães” descrita por Marcos (ver cap.6, vers.30-44). O desafio lançado por Jesus aos seus discípulos – “Dai-lhes vós mesmos de comer” – mantém-se actual.

Fraternalmente, 

grão de mostarda

-- até segunda-feira próxima, não será publicada a reflexão do evangelho do dia AO ENTARDECER...




Bondade de coração


A bondade só pode gerar mais bondade. Mesmo ante a raiva, melhor é contrapor a bondade. Mesmo que isto choque ou surpreenda os outros e até provoque o riso. E confiar sempre numa esperança cega e inesgotável, mesmo que esta atitude, por incompreendida, seja vista como uma loucura pelo mais comum dos mortais. Chamamos "loucura" àquilo que nos ultrapassa e não conseguimos compreender relativamente aos comportamentos divergentes. Contrapor o perdão e a paz como resposta à violência causa estranheza ao mais comum dos mortais.

Perdoar é uma forma elevada de amor, muito próximo do amor incondicional dos pais pelos filhos e vice-versa. Temos dificuldade em lidar com a dor e com o sofrimento dos outros, aqui a compaixão é uma prática excecional e incomparavelmente vantajosa para quem se sente acolhido, ouvido pelo outro mas também para quem é compassivo. Isto é outra forma grande de amor. Praticar isto de forma natural, ser-se compassivo com os outros, estar lado a lado com a dor dos outros é perceber que a dor faz parte integrante de se estar vivo. Quanta dor podemos causar quando nos esquecemos de ser compassivos e abandonamos quem está doente e só estamos nas ocasiões da festa e da celebração? É como só existíssemos na alegria dos outros e desaparecêssemos nos momentos de dor.

Na bondade, na misericórdia tem de estar o perdão. É o perdão que se revela a melhor forma de ultrapassar os conflitos. A guerra nunca resolveu coisa nenhuma. A violência só gera violência. Ao invés, a bondade só gera bondade. Todos tendemos naturalmente para o bem e para a bondade. E aqui, mais uma vez, lá está o perdão como condição sine qua non para que haja tranquilidade, pacificação. Menos fácil é sermos capazes de nos perdoar a nós mesmos ao nível intra-pessoal, quando não confiamos em nós, quando sentimos raiva por nós mesmos, aqui os outros podem ser nossos ouvintes e ser compassivos para connosco até sermos capazes de extinguir a nossa culpabilidade. O ressentimento, a raiva acumulada, a intransigência deixam-nos desgastados, intranquilos, sem paz interior, com a consciência pesada e sem sono tranquilo. Perdoar liberta quem perdoa e quem é perdoado, co-responsabilizando ambas as partes para não haver repetência no erro.
  
Mas também no erro se aprende. Quando deixamos de repeti-lo, já teremos então aprendido.

A esperança é uma capacidade inesgotável de viver em paz com o tempo. Mesmo nos momentos negros, escuros e que nos deixam perdidos, a esperança tranquiliza-nos interiormente na realidade de que o tempo é irrepetível, flui e não pára nunca. Esta consciência que nos faz confiar na ideia de que não há dias igual, nem horas iguais dá-nos a tranquilidade da esperança num futuro próximo melhor e mais favorável.

Confiar implica arriscar. Sem arriscar não podemos ter a perceção daquilo ou de quem é confiável. A desconfiança é o comodismo de não se querer arriscar ou ousar confiar mesmo naqueles que em quem a maior parte das pessoas deixou de acreditar. Mas é esta gente que mais precisa da confiança dos outros e de restaurar também a sua auto-confiança.

Para quê ter tanta pressa? Porquê querer tudo logo e já? Que não tenhamos tempo para ter pressa! Que saibamos esperar, sem desesperar e não aceleremos o ritmo natural da cadência da vida, assim como o ciclo do Sol, desde a alvorada ao crepúsculo. Sempre com simplicidade, naturalidade. Não podemos fugir ao desígnio de esta dimensão não ser para sempre. Que aprendamos a estimar este milagre de estarmos vivos e com saúde, sem perdermos a inquietação pela dor dos que não a têm. Não somos donos do tempo, estamos de passagem. Somos húmus na nossa essência, somos natos como a natureza, só temos que aceitar a passagem do tempo com naturalidade, viver num ritmo natural como a Natureza.

Simples, funcional e tranquilamente sem acelerarmos o tempo. Este aceleramento violento do tempo é falta de esperança, incapacidade de confiar nos outros, na vida e no facto de que as coisas se resolvem porque é tudo uma questão de tempo.

Paulo França

quinta-feira, 5 de abril de 2012

PENSAMENTO EM BUSCA


Derrubar os muros construídos pelas nossas severidades.
As severidades erguidas contra nós e os outros...
E escutaremos o convite: “abre espaços de VIDA”.
E assim, ressurgiremos, ressuscitaremos no AMOR INFINITO! 


grão de mostarda

quarta-feira, 4 de abril de 2012

PENSAMENTO EM BUSCA


Não deixar que conspirem contra nós os desertos.
Não consentir que as vacilações sejam os agulheiros da incredulidade...
A verdadeira alegria começa a despontar na entrega de nós mesmos.
E o AMOR vai-se tornando luz interior nas nossas vidas!


grão de mostarda