segunda-feira, 2 de julho de 2012

AO ENTARDECER


Um letrado aproximou-se de Jesus e disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para onde fores”. Mas Jesus respondeu-lhe: “As raposas têm os seus refúgios e os pássaros os seus ninhos, mas o este Homem não tem onde reclinar a cabeça”. (ver Mateus 8, 18, 22)

“ (...) Não é Jesus quem chama ao seguimento, mas sim é o ‘letrado’ quem toma a iniciativa e se oferece para seguir Jesus sem ter sido chamado por ele. Os letrados eram homens instalados. (...) eram homens instalados nas suas convicções, nas suas teorias, nas suas normas e doutrinas. E isso é o que Jesus não aceita. Por isso, o próprio Jesus responde a este espontâneo letrado com a dupla referência às raposas e aos pássaros. E com isto o que Jesus pretende dizer àquele homem é: ‘enquanto não fores um homem livre como os animais do campo e as aves do céu, não penses seguir-me’. Porque é tudo o que nos aprisiona, nos instala e nos limita a liberdade, é tudo isso que torna impossível o discipulado (...) ”.



AO ENTARDECER… espaço de busca no final do dia, a partir de pequenos comentários do teólogo espanhol José María Castillo – http://blogs.periodistadigital.com/teologia-sin-censura.php –, sobre as propostas de Jesus. Extractos retirados do seu livro “La religión de Jesús – Comentarios al evangelio diario”, editado pela Desclée De Brouwer (Bilbao), 2011.

grão de mostarda

PENSAMENTO EM BUSCA


Os momentos de encontro, de convívio e de partilha com os outros deixam-nos um agradável sabor no coração; são uma bênção que desperta em nós energias de solidariedade fraterna para a luta do dia-a-dia.

 
grão de mostarda

domingo, 1 de julho de 2012

ESCUTAR O AMOR


“Se aqueles que são chamados a falar do Evangelho ou a expressar diante dos outros uma oração pudessem dizer a si próprios: ‘Que a tua oração, que as tuas palavras, nunca contenham a menor ameaça em nome de Deus!’ Deus não se impõe suscitando medo...” irmão Roger

 grão de mostarda

sábado, 30 de junho de 2012

DE QUE MUNDO SOMOS?


Caríssimas e caríssimos,

De que mundo somos? Todos os dias o coração nos coloca esta questão, quer seja a propósito de decisões pessoais ou de situações experimentadas colectivamente. E a partir dela, durante um ano, Luísa Alvim e Valentim Gonçalves aceitaram o convite do grão de mostarda de a refletir juntos, em jeito de cartas. E num momento do mundo, e do país, em que se nos colocam interrogações a sistemas que tínhamos como adquiridos, a nível social, político, financeiro e mesmo religioso, as cartas de Luísa Alvim e de Valentim Gonçalves constituíram, na verdade, janelas de esperança... Outras cartas surgirão, a partir de Outubro.

Hoje, escrevemos a carta (ver ANEXO) que encerra este arco daquelas reflexões, e que culminará num encontro-diálogo com a Luísa Alvim e o Valentim Gonçalves no próximo sábado, dia 7 de Julho. Renovamos-vos o convite (programa em ANEXO).

? Na inscrição (através de mail ou pelo Facebook), INDIQUEM DE QUANTAS PESSOAS VÊM ACOMPANHADAS/OS), PELO MENOS ATÉ AMANHÃ, DIA 1 DE JULHO. A principal razão por que solicitamos esta confirmação deve-se a uma questão prática: a confecção do almoço.

? Agradecemos ainda nos informem (até amanhã, também) SE NECESSITAM DE DORMIDA. Quer seja para a noite de 6 para 7 de Julho ou de 7 para 8 de Julho.

? A quem já se inscreveu, por mail ou Facebook (ver Eventos), MAS NÃO ENVIOU AQUELAS INDICAÇÕES, agradecemos que o façam, também até amanhã, dia 1 de Julho.

Com estima fraterna,
 
grão de mostarda



Caríssima Luísa e caríssimo Valentim,

relendo as vossas cartas De que mundo somos?, escritas entre Junho de 2011 e Junho deste ano, ecoam-nos as seguintes palavras do livro de Jeremias: “Os meus desígnios para vós são de paz e não de tribulação; quero dar-vos um futuro e uma esperança(1). Atribuindo este oráculo a Deus, o profeta dirige-o à porção do povo judeu que se encontrava no cativeiro da Babilónia.

A urgência da esperança é a convicção mais vezes manifestada nas vossas cartas. E as razões por que a expressastes conduziram-nos a Jeremias, homem atento às causas que levaram à submissão do seu povo: as palavras e os comportamentos enganosos dos próprios dirigentes, religiosos e políticos, e os interesses gananciosos de países estrangeiros. A presente perturbação social e política provocada pelo sistema financeiro, sentida em particular na Europa e, consequentemente, no nosso país – tão assiduamente reflectida nas vossas cartas –, remeteu-nos à situação vivida pelos judeus, 600 anos antes de Jesus.

Jeremias não se deixou vencer pelo desterro dos seus irmãos: “Construí casas e nelas habitai, plantai pomares e comei seus frutos, casai-vos e gerai filhos e filhas...” (2). Nunca se submeteu ao desânimo, apelando sempre a uma atitude de perseverança. E por isso anunciou: “Deus quer dar-vos um futuro e uma esperança”. Também, das vossas cartas, acolhemos idêntico apelo que, em nós ganha raízes fundas a favor de uma esperança actuante, praticada no quotidiano das incertezas no qual os diversos poderes nos querem submergir.

“Na significativa mudança de paradigma que estamos a viver e que afecta o mundo, a política, a economia e as culturas, necessitamos com urgência de uma ‘visão’ que procure vislumbrar o contorno de um mundo mais pacífico, mais justo, mais humano” (3). Recorda Hans Küng, teólogo da esperança que, no seu livro acima citado, nos previne: “A primeira coisa que necessita a pessoa, toda a pessoa, é a confiança na vida, uma confiança radical”.

Nenhum ser humano consegue sobreviver, interior e socialmente, no cepticismo e no desânimo. E, como reconhece o irmão Roger, este ambiente pode “paralisar o ser humano” (4), impossibilitando-nos de exercitar esta confiança na vida.

Mas onde ir buscar a luz e o ânimo, para que seja possível empreender uma caminhada de confiança total na vida, geradora de esperança?

As propostas de Jeremias podem constituir hoje um manual capaz de iluminar e animar uma decisão pessoal, que inevitavelmente tem de ir sendo construída e, depois, assumida no nosso interior. Sobre esta opção são elucidativas as palavras do irmão Roger: “Uma paz sobre a terra prepara-se na medida em que cada um se atreve a perguntar-se a si próprio: estou disposto a buscar a paz interior, a avançar desinteressadamente? (...) Há aqueles que são portadores de paz e de confiança onde há choques e oposições. Inclusivamente, permanecem firmes quando a prova ou o fracasso pesam sobre os ombros” (4).

É sempre necessário correr riscos, ser fermento, enquanto a nossa vida, pouco a pouco, se vai convertendo em caminho de confiança e em lugar de esperança na Vida. Nada é imediato, nas verdadeiras decisões humanas, naquelas de que resultam uma mudança profunda.

Por onde começar? Como Jeremias aponta, por decisões pessoais que, aos poucos, se alargam a outros corações, a outras vontades já despertas para “avançar desinteressadamente”, na expressão do irmão Roger (5). Em cada lugar, em cada circunstância será possível discernir razões, espaços e vontades que tornarão possíveis os sonhos de quem já procura “vislumbrar o contorno de um mundo mais pacífico, mais justo, mais humano” (3). Outras decisões poderão avançar para uma organização mais ampla, mais global com vista a exercer o direito de alterar os sistemas político-financeiros degradados e injustos pelo “novo paradigma de uma política mundial mais pacífica” (3). Pacífica, por ousar defender os mais frágeis; por ousar integrar e nunca excluir...

Reconhecemos que as decisões imediatas para alterar o actual estado de injustiças, legitimadas pela defesa de um sistema financeiro obsoleto (uma defesa levada hoje ao extremo por instâncias internacionais, como a União Europeia), assim como para impedir o mau uso dos bens da Terra, não estão nas nossas mãos, tanto a nível local como de modo mais global. Todavia, “não são apenas os responsáveis pelos países que constroem o futuro. O mais humilde dos humildes pode contribuir para um futuro de paz” (4). Estaremos disponíveis a dar passos neste sentido? A exemplo de Jeremias, estaremos decididos a assumirmo-nos anunciadores/fazedores de “um futuro e uma esperança”?

Com estima fraterna,
 
grão de mostarda




(1) Jeremias 29, 11
(2) Jeremias 29, 5
(3) Lo que yo creo (Editorial Trotta, Madrid, 2011)
(4) “La paz empieza en nosotros mismos” in  Presientes una felicidad? (PPC, Madrid, 2006)
(5) “Quem quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me” (Marcos 8, 34). Jesus e os seus conterrâneos conheciam bem o que os militares exigiam aos condenados à morte por Roma: tinham de transportar sobre os ombros a trave transversal da sua cruz. Ou seja, um despojamento total da sua própria imagem... Negar-se é vencer o seu próprio egoísmo, abandonar os interesses mais pessoais, a sua própria auto-imagem, nascida do ego.



AO ENTARDECER


Dia 29 de Junho de 2012

Pedro disse a Jesus: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. E Jesus respondeu: “Ditoso és Simão, filho de Jonas... Agora digo-te: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...” (ver Mateus 16, 13-19)

“Quase todos os estudiosos do evangelho de Mateus estão hoje de acordo em que a resposta de Jesus a Pedro não foi pronunciada por Jesus, mas foi introduzida mais tarde. Jesus nunca falou da Igreja. Em Mateus 18, 7 refere-se à ‘comunidade’. Jesus não fundou a Igreja. O que se pode afirmar é que, ao anunciar o Reino de Deus, ‘colocou o começo’ (Concílio Vaticano II: LG 5) daquilo que depois do Pentecostes começou a ser a Igreja (...).”




AO ENTARDECER… espaço de busca no final do dia, a partir de pequenos comentários do teólogo espanhol José María Castillo – http://blogs.periodistadigital.com/teologia-sin-censura.php –, sobre as propostas de Jesus. Extractos retirados do seu livro “La religión de Jesús – Comentarios al evangelio diario”, editado pela Desclée De Brouwer (Bilbao), 2011.

grão de mostarda