domingo, 16 de dezembro de 2012

ESCUTAR O AMOR



“Nunca mais ‘acolhedores’ e ‘acolhidos’, mas irmãos. Deus não separa os ‘nacionais’ dos ‘estrangeiros’, nem os ‘cristãos’ dos ‘não cristãos’, ou até os ‘praticantes’ dos ‘não praticantes’. Estamos todos em caminho…” Henry Quinson (*), “Moine des cités – de Wall Street aux Quartiers-nord de Marseille”; Nouvelle Cité, França, 2008 (**)

 
 (*) Henry Quinson, antigo economista reconhecido nos meios financeiros de norte-americanos e de França, decide, em 1989, iniciar uma busca espiritual. Depois de experiências diversas, funda a Fraternidade de S. Paulo, passando a viver do seu trabalho, em Março de 1997, com outro companheiro, num bairro social de Marselha, habitado por uma maioria de famílias muçulmanas.
(**) edição em português: “Do champanhe aos Salmos – de Wall Street aos Bairros-norte de Marselha”; Paulinas, 2010


grão de mostarda

sábado, 15 de dezembro de 2012

ESPERANÇA: CAMINHO E HORIZONTE



Caríssimos e caríssimas, 

 Luísa Alvim* e Valentim Gonçalves ** reflectiram connosco, durante um ano, até Junho passado, questões essenciais da vida, através das cartas “De que mundo somos?” que foram escrevendo um ao outro.

Relidas as suas cartas, reconhecemos-lhes um traço comum: a urgência da esperança. De uma esperança actuante, de busca de sentido… “Um novo céu e uma nova terra”. 

Assim, propusemos-lhes novas cartas, com novo mote – ESPERANÇA: caminho e horizonte – e que hoje iniciamos com a “reflexão de arranque” que ambos solicitaram que fizéssemos. E é de Etty Hillesum, a filha de casal judeu morta em Auschwitz, que recolhemos a inspiração, a partir de uma questão, que já em plena deportação dos judeus, ela se coloca: “Gostava muito de viver como os lírios do campo…” (ver ANEXO).

Com estima fraterna,

grão de mostarda


Ser como os lírios do campo…

Caríssima Luísa e caríssimo Valentim,

Etty Hillesum, no seu diário redigido durante a inominável crueldade nazi, escreveu: “Gostava muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo” (1).

Etty estava absolutamente consciente da situação de precariedade, não apenas material, mas sobretudo humana que então se vivia. E apesar do que presenciava no campo de concentração de Westerbork (Holanda) um “foco de sofrimento humano” –, o que a impelia era nunca perder o sentido de “como na realidade a vida é bela, digna de ser vivida e justa, sim, justa”. Daí a urgência em desejar “viver como os lírios do campo” e a ânsia de que os outros compreendessem “esta época”, para que também fossem capazes de assim viver…

Em Westerbork, Etty empreendera um despojamento absoluto – “ (…) foi lá, entre as barracas, repletas de gente agitada e perseguida, que achei a confirmação para o meu amor por esta vida”. Ali, antes de ser deportada para Auschwitz, iniciou uma peregrinação pelo essencial, que a levaria a deixar nos apontamentos daquele dia 22 de Setembro de 1942 palavras de esperança, ao evocar aquela passagem evangélica de Mateus (2).

O reinado de Deus: horizonte e caminho…

A escassez de atitudes humanizadoras, como a que se instalou no nosso tempo em diferentes instâncias políticas, financeiras e sociais, parecem constituir sempre um obstáculo a decisões de esperança. Sobretudo pelos diversos medos que suscitam, condicionando a própria liberdade humana… O monge beneditino Anselm Grün, porém, recorda-nos: “Mesmo que a liberdade esteja limitada… a nossa missão consiste em decidirmo-nos pelo bem” (3). 

As decisões de esperança somente surgirão a partir da bondade humana. Não é uma ingenuidade. E Etty compreendeu e experimentou isto no seu interior, num momento da história humana que exigiu, a ela e a milhões de pessoas, um desprendimento total. E assim se encaminhou para o essencial… 

O que agora nos é dado experimentar, neste nosso tempo, revela-se também um irresistível convite a percorrer caminhos nos quais se recupere o essencial do ser humano.

Caminhos interiores, que levam a aprofundarmo-nos. Não apenas na nossa fragilidade, nas nossas amarras e opacidades, mas também nas nossas possibilidades aquilo que, em cada ser humano, é mais fulgurante, mais genuíno: a simplicidade e a generosidade, que nos tornarão capazes de “viver como os lírios do campo”. Este desígnio permite-nos avaliar os caminhos, pessoais e colectivos, reveladores da urgência de atitudes transformadoras deste nosso tempo numa “época de esperança”…

Recuperando a passagem de Mateus (4). Que diz Jesus? Começa por afirmar: “Ninguém pode estar ao serviço de dois senhores, pois ou odeia um e ama o outro, ou agradará a um e desprezará o outro”. E logo faz um conjunto de recomendações – “não andeis angustiados pela comida e bebida para conservar a vida ou pela roupa para cobrir o corpo” – que, à primeira vista, poderão parecer desresponsabilizadoras.

No discurso de Jesus, porém, o essencial é a felicidade humana, a fraternidade universal. O seu horizonte é aquilo que na linguagem evangélica se designa por Reino de Deus. 

Mas “não se trata de uma felicidade barata e rápida, em que andamos à nossa volta e ignoramos todos os aspectos negativos do mundo…”, anota Anselm Grün (3). Jesus, de facto, adverte-nos que não podemos servir a “dois senhores”. Não ensina a despreocupação, com a nossa vida pessoal e a vivência em sociedade. O apelo que faz é o de uma conduta ética que nos convoca à mudança do objecto das nossas preocupações, e assim inscrita na conclusão do seu discurso: “Buscai antes de tudo o reinado de Deus e a sua justiça…”. Aqui reside a chave de interpretação da proposta de Jesus: só na mudança de paradigma, na mudança de objectivos, pessoais e colectivos, poderemos “viver como os lírios do campo”. Somente quando se desce ao essencial, àquilo que torna a vida um acto de generosidade é que poderemos viver “despreocupados” como as aves do céu e os lírios dos campos… porque só a simplicidade permite a generosidade. 

De contrário viveremos, sempre, (pre)ocupados, senão mesmo obcecados, com a manutenção do sistema – “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” – e não com “o reinado de Deus e a sua justiça”, enquanto horizonte e caminho de esperança... 

Com estima fraterna,

grão de mostarda

(1) Etty Hillesum, “Diário – 1941-1943”, Assírio & Alvim, Lisboa (Portugal), 2008. Etty (diminutivo de Esther) Hillesum, filha de um casal judeu de Amesterdão (Holanda), morre no campo de extermínio nazi em Auschwitz, a 30 de Novembro de 1943. O seu “Diário”, além de permitir descobrir o seu empenhamento humano e social, percorre o seu itinerário espiritual nos tempos conturbados da ocupação hitleriana

(2) “Observai como crescem os lírios selvagens, sem trabalhar nem fiar (…).” (Mateus 6, 27)  
(3) “O livro das respostas”, Paulinas (Junho, 2008)

(4) Mateus 6, 24-34: “Ninguém pode estar ao serviço de dois senhores, pois ou odeia um e ama o outro, ou agradará a um e desprezará o outro. Não podeis estar ao serviço de Deus e do Dinheiro. Por isso vos recomendo que não andeis angustiados pela comida e bebida para conservar a vida ou pela roupa para cobrir o corpo. Não vale mais a vida do que o sustento, o corpo mais do que a roupa? Observai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem amontoam nos celeiros. E no entanto o vosso Pai dá-lhes comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? Qual de vocês, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vida? E por que hão-de vocês andar preocupados com a roupa? Reparem como crescem os lírios selvagens sem trabalhar nem fiar. Contudo, digo-vos, que nem Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como eles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais a vos há-de vestir a vós. Portanto, não andem preocupados, dizendo: Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir? (…). Procurem primeiro o Reino de Deus e a sua justiça. Não vos preocupeis com o amanhã, pois o amanhã se ocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu problema.”

*Luísa Alvim, cristã empenhada na paróquia católica de S. Victor, em Braga – os seus “diários” da catequese no Facebook constituem verdadeiras parábolas sobre o Amor Infinito –, é também membro do Metanoia – movimento de profissionais católicos. Técnica superior (área de Biblioteca e Documentação), na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão – actualmente a trabalhar na Casa de Camilo - Museu e Centro e Estudos –, diz-se uma “sonhadora do impossível”.

**Valentim Gonçalves é pároco da comunidade católica de S. Pedro do Prior Velho, desde a sua constituição como paróquia, em Outubro de 1999. A população do Prior Velho (concelho de Loures) conhece este missionário do Verbo Divino, desde há duas décadas, quando começou a empenhar-se no serviço aos moradores da Quinta da Serra – bairro ilegal, constituído maioritariamente por imigrantes africanos. Provincial da sua congregação e membro da Comissão de Justiça e Paz dos Institutos Religiosos, assume também trabalho pastoral na antiga Quinta do Mocho (actual Terraços da Ponte, em Sacavém), igualmente habitado por uma população de imigrantes africanos.


Foto: Gilberto Dutra

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,
o actual “momento mágico” de Paula Constantino  constitui um testemunho de esperança – “a minha experiência da vitória do cancro”, tal como ela considera a caminhada que fez até aqui… Na sua primeira reflexão para Escutar a vida (ver ANEXO), faz eco da sua atitude perante a doença: sempre conduzida pela não desistência.
Esta sua experiência foi, e continua a ser, uma jornada de esperança. De uma esperança que convoca o coração “a encontrar um sentido para a nossa vida”.
Com estima fraterna,

grão de mostarda


Testemunhas da Esperança



Ao iniciar a minha participação no “Escutar a Vida” quero fazê-lo de uma forma positiva, porque bela é a vida e tudo aquilo que a rodeia.

Permitam-me que partilhe convosco uma pequena experiência, que tem sido para mim uma enorme escola de vida e de Esperança. Há quatro anos e meio foi-me diagnosticado um cancro da mama grave. Fui operada, fui aos tratamentos de quimioterapia e radioterapia e, quando no final, disse ao médico que tudo tinha decorrido como o previsto, ele respondeu-me: “É muito bom sinal”.

Do medo e da angústia passei à Esperança, porque acreditei sempre que sem ela era mais difícil vencer esta batalha. Com a presença e apoio da minha família, dos amigos e de tantos outros, fui ultrapassando os obstáculos que esta doença por vezes coloca na nossa vida.

Ir às consultas ou fazer exames é sempre algo que me torna ansiosa, pela expectativa do resultado e pelo que o médico me pode comunicar. Felizmente que as notícias foram sempre boas: “Está tudo bem”.

Agora, e ao fim deste tempo, fui novamente ao médico e, no meio do turbilhão da ansiedade, cheguei à consulta e ouvi o seguinte do médico: “As suas análises estão excelentes e os exames também”.

Foi um momento mágico, este. Foi a primeira vez que ouvi isto do médico. Fiquei absolutamente feliz. Venci o cancro. E nada melhor do que isto para perceber o verdadeiro significado da palavra Esperança e de como ela faz todo o sentido na nossa vida. Nunca como agora afirmo com toda a força e consciência que desistir nunca, jamais em tempo algum, porque desistir nos impede de trilhar novos caminhos, de escutarmos o nosso próprio coração e de irmos até onde ele nos quer levar.

Viver com esta doença é sempre difícil. Pela incerteza do sucesso ou insucesso, pela quantidade de questões que nos caem em cima e que é preciso aprender a gerir e lidar: o medo, a angústia, as emoções, a parte psicológica, etc., e isso permite-nos ter um outro olhar sobre o valor da vida e daquilo que é o essencial.

É por isso que tão importante saber estar com as pessoas que passam por esta experiência. Podemos não ter resposta no momento, mas não as podemos deixar de mãos vazias, isto é, sem um sinal de Esperança, mas uma Esperança atuante, que vai, interpela, busca e envia a encontrar um sentido para a nossa vida, maior do que a doença, porque a esperança passiva, que fica à espera de que tudo se resolva, essa não chega a lado nenhum a não ser ao conformismo, que não é de todo solução para nada.

Quero aqui deixar, também, a minha homenagem a todas e todos que, tendo lutado e se empenhado tanto para vencer esta doença, mantendo a chama da esperança viva até ao limite das suas forças, não conseguiram vencer. Acreditaram sempre, foram vencidos por uma luta desigual…

Vale a pena acreditar, vale a pena ter Esperança.

Paula Constantino

domingo, 9 de dezembro de 2012

ESCUTAR O AMOR



“As outras pessoas são-me enviadas como bênçãos, mesmo que, por vezes, apareçam disfarçadas – como um presente escondido, diríamos…”, Albert Nolan(*), “Jesus hoje – uma espiritualidade de liberdade radical”; Paulinas, 2008

 (*) Albert Nolan, teólogo e membro da Ordem dos Dominicanos, nasceu na cidade do Cabo (África do Sul). Em 2003 foi agraciado, pelo Governo sul-africano, com a Ordem Luthuli, em reconhecimento da sua luta em favor da Democracia e dos Direitos Humanos.

grão de mostarda