terça-feira, 25 de dezembro de 2012

ESCUTAR O AMOR



“No mais profundo de nós mesmos encontra-se UM APELO À LIBERDADE INTERIOR. E há nela uma certa poesia. Uma poesia capaz de rejubilar com coisas de nada, com o vento nas árvores, com as luzes a alternar no céu, com a intimidade de uma simples refeição, com a presença dos mais chegados, das crianças…” (irmão Roger, “Viver em tudo a paz do coração”, Paulinas, 2008)

  

grão de mostarda

ESPERANÇA: CAMINHO E HORIZONTE



Caríssimas e caríssimos, 


iniciou-se um novo ciclo de cartas entre Luísa Alvim e Valentim Gonçalves, e que se publicarão cada 15 dias.


Na “carta de arranque”, no passado dia 15, lançámos o olhar sobre o que nos é dado experimentar, neste nosso tempo, tendo como ponto de prévio de reflexão palavras de Etty Hillesum no seu diário: “Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo”.


Nesta primeira reflexão de “Esperança: caminho e horizonte”, Valentim Gonçalves, que recentemente visitou Auschwitz e Birkenau, pergunta-se pelo “sentido da esperança”, quando o perigo do momento presente parece ser precisamente o de nos deixarmos “afogar pelas ondas do sem-sentido”. E duas experiências conduzem a reflexão – uma durante a viagem, em Colónia (Alemanha), e outra na comunidade de imigrantes nos terraços da Ponte (Sacavém) –, para sublinhar que viver a esperança “é mesmo remar contra a corrente” ( ver ANEXO).



Com estima fraterna,

grão de mostarda


Remar contra a corrente




Estimada Luisa,



Aqui estamos de novo a responder ao desafio que os amigos do grão de mostarda nos colocam (*), partilhando as nossas reflexões nascidas da experiência de viver no mundo, mas sem se deixar afogar pelas ondas do sem-sentido que o mundo por vezes nos oferece. Nada é absoluto. As nossas experiências não são a última palavra a dar sentido à vida; só Aquele que é a Palavra/Diálogo/Revelação o pode fazer.


Em momentos de crise é bom e reconfortante olhar para quem, como Etty Hillesum (1), atravessou caminhos mais tenebrosos sem perder a esperança de encontrar uma luz ao fundo do túnel. Sinto-me especialmente próximo dessa experiência pela “memória” que há dois meses vivi ao visitar Auschwitz e Birkenau, uma daquelas visitas que, apesar de “turísticas”, conseguem tirar as palavras aos visitantes, lançando-os num mundo de interpelações, de espanto, de indignação, na confusão humilde de quem constata as limitações da pessoa humana, mas também a força interior que a pode lançar para fora da confusão como a flor que surge no meio do pântano. Uma experiência que nos ajuda a dar a cada coisa o seu valor e a sua dimensão; que nos ajuda a manter as devidas cautelas para não confundir a árvore com a floresta. 


Curiosamente, no dia seguinte a essa visita, no caminho de Varsóvia para Bona, resolvi parar umas horas em Colónia para visitar o centro da cidade. Para o efeito depositei o meu saco de viagem na estação ferroviária, utilizando aquele sistema sofisticado onde, com alguns cliques, a bagagem é conduzida para qualquer parte e dai, pelo mesmo sistema, regressa ao depositante. Umas horas depois lá regressei, mas da bagagem nem sinal. Interpelando os responsáveis, só me disseram que tinha que esperar: esperei três dias. Só tinha comigo a roupa que vestia, o porta-moedas com uns trocos e a máquina fotográfica; no saco estava a roupa, o bilhete do avião, vários documentos, algum dinheiro. E da parte deles só uma resposta: esperar; nem uma palavra que manifestasse alguma empatia ou preocupação relativamente a comer, dormir… o mais fundamental, além de todo um programa desfeito. Mas, ainda sob o efeito do que “visitara” no dia anterior, ia dizendo para mim mesmo que, apesar de algumas semelhanças – estar de pé horas seguidas, pois não havia bancos e a olhar para o vazio - não se poderia fazer qualquer equiparação. Enfim, uma aventura que me fez ir digerindo a visita ao campo de concentração, ou mais corretamente, de extermínio, onde “a ausência de atitudes humanizadoras” como é referido na carta inicial (*), possibilitou toda aquela obscenidade e tragédia. 


As dificuldades do momento parecem incompatibilizar o sentido da esperança. Mas é aqui e agora que falar disso tem sentido. E quando a sociedade bate no fundo é então que mais necessário se torna encontrar a luz que mostra a saída. E, quando olhamos para certas figuras conseguimos discernir o mais luminoso da humanidade, como no que se refere a Etty, Anne Franke, Edith Stein, Maximiliano Kolbe, Irena Sendler (esta uma heroína sobre quem acabara de ler, antes de partir para a Polónia, o livro “A História de Irena Sendler – a Mãe das Crianças do Holocausto”, e que durante a ocupação nazi organizou a saída de cerca de 2.500 crianças do Gueto de Varsóvia, salvando-as assim e aos seus descendentes do Holocausto).

A liturgia do Advento apresenta-nos as exortações dos profetas dirigidas a um povo que ainda não tinha desistido de sonhar em ser livre e em viver na sua terra. Num destes domingos, no dia 12 passado, o profeta Baruc dizia: “Levanta-te, Jerusalém; despe as vestes de luto, porque o Senhor chegará com a sua salvação” (2). 


O Reino de Deus está aí perante cada momento, ainda que incompreensível, como um apelo a “percorrer caminhos nos quais se recupere o essencial do ser humano”. Ainda há dias mais convencido disto fiquei ao ver a comunidade de Terraços da Ponte a celebrar a festa da Imaculada juntando-se para um almoço partilhado depois da Eucaristia; apesar da carestia, eles foram capazes de se juntar e viver o melhor que a vida tem: a fraternidade e a alegria na partilha. Por isso me dizia alguém: “Nós os africanos temos isto: quando há para um, também há para os outros”; e assim continuaram a cantar e a dançar, como só eles sabem fazer. Bem disse Jesus: “Não andeis angustiados pela comida e pela bebida”; é que demasiada preocupação cria angústia e esta não nos deixa ver o que de bom e de belo ainda temos à nossa frente; paradoxalmente não deixa ver onde realmente investir para ultrapassar a crise, nem para encontrar os lenitivos indispensáveis para chegar ao fim de cabeça levantada. Por isso o profeta repetia: “Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o oriente”. A esperança é mesmo remar contra a corrente, com a convicção de que se vencerá.


Para ti e para todos um Natal de esperança!



Valentim


(*) carta do grão de mostarda, publicada no passado dia 15.


(1) Etty Hillesum, filha de um casal judeu de Amesterdão (Holanda), morre no campo de extermínio nazi em Auschwitz, a 30 de Novembro de 1943. O seu diário (“Diário – 1941-1943”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008), além de permitir descobrir o seu empenhamento humano e social, percorre o seu itinerário espiritual nos tempos conturbados da ocupação hitleriana. 


(2) ver Baruc 5, 1-9

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

AO ENTARDECER



Jesus disse a um jovem: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me”. Mas o jovem ao ouvir isto foi-se embora triste, porque era muito rico. (ver Mateus 19,16-22)

“ (…) O espírito de pobreza não consiste em tornar-se mísero, mas sim em dispor de tudo com imaginação, na beleza simples da Criação.

(…) Uma contínua simplificação da existência afasta dos caminhos sinuosos, nos quais os nossos passos se perderiam.” (irmão Roger, “Las fuentes de Taizé – Dios nos quiere felices”, PPC, Madrid, Espanha, 2003)




grão de mostarda

PENSAMENTO EM BUSCA




“Podes não controlar todos os acontecimentos da tua vida, mas podes decidir não deixar que eles te debilitem. Tenta ser o arco-íris da nuvem de outra pessoa.” 


 Maya Angelou, “Carta à minha filha”; Estrela Polar, 2008


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