domingo, 27 de janeiro de 2013

ESCUTAR O AMOR



“Deus está em todo o lado, mas são necessários alguns lugares para nos comprometermos numa relação fiel com ele.” Henry Quinson , “Moine des cités – de Wall Street aux Quartiers-Nord de Marseille”, Nouvelle Cité (França), 2008 – versão portuguesa: “Do champanhe aos Salmos”, Paulinas, 2010


Ilustração:  Maria Dulce Bernardes

domingo, 20 de janeiro de 2013

ITINERÁRIO DE CONFIANÇA



ITINERÁRIO DE CONFIANÇA


“Com que me apresentarei ao Senhor, quando me reclinar perante o Deus do alto? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com novilhos que tenham um ano? Agradará ao Senhor mil carneiros ou dez mil rios de azeite? Pelo meu delito, entregar-lhe-ei o meu primogénito ou o, pelo meu pecado, fruto do meu ventre? 

Homem, já te expliquei o que é bom, o que o Senhor deseja de ti: basta que respeites o direito, pratiques com amor a misericórdia e que caminhes humildemente com o teu Deus. Como é acertado respeitares-te a ti mesmo!” Miqueas 6, 6-8


Caríssimas e caríssimos,

a unidade entre os cristãos “começa pela vida quotidiana de cada um de nós” (1). É este o compromisso que desejamos assumir em gestos concretos, na ocasião em que se celebra a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, iniciada há mais de um século (2).

Inspira-nos neste propósito o texto bíblico do profeta Miqueias, escolhido como tema deste oitavário pela unidade dos cristãos: o projecto de Deus para a Humanidade é a felicidade, somente possível pela bondade de coração e a prática da justiça (3). No nosso coração, compreendemos que este deverá ser o cuidado que unirá os cristãos, para que se torne realidade o apelo de Jesus: “Sereis minhas testemunhas” (Actos 1, 8).

O irmão Aloïs, prior da comunidade de Taizé, a propósito desta passagem do livro do Actos dos Apóstolos, escreve: “Estas palavras de Cristo ressuscitado comportam, hoje, para nós, um convite a uma profunda mudança de coração. Como poderemos nós, que somos cristãos, ser testemunhas deste Cristo que ‘destruiu o muro de separação’ entre os homens, se permanecemos divididos entre nós?” (4).

Num momento de tribulação e de grandes injustiças para o povo, o profeta Miqueias não hesitou em ser testemunha; perante situações angustiantes escolheu o caminho da esperança… (5). Saberemos nós, no tempo presente, aceitar fazer uma reflexão profunda do conteúdo das palavras de Miqueias? E depois, em comunhão, teremos a audácia do irmão Roger, que a si mesmo colocou esta questão: “Como poderá a Igreja abrir as portas da compaixão e da bondade do coração?” (6).

Sistemas políticos e financeiros, durante anos e anos, apoiaram-se num paradigma obsessivo de crescimento económico. Com promessas de uma sociedade de abundância, afirmavam garantir uma felicidade que, agora mais a descoberto, se sabe estar assente em teias injustas e desumanizadoras, para a vida humana e o próprio planeta.

Que fazer? 

O irmão Aloïs, na noite de 31 de Dezembro passado, perante os 45 mil jovens que se reuniram no Encontro Europeu de Roma (7), afirmou: “Se nós, cristãos, assumíssemos juntos um compromisso prioritário pela justiça e pela paz, uma nova vitalidade do cristianismo poderia nascer: um cristianismo humilde, que não impõe nada, mas que é sal da terra.”

Esta proposta tocou fundo nos nossos corações. E longe de desejar retomar qualquer triunfalismo ou de criar quaisquer estruturas paralelas (8), as palavras do irmão Aloïs despertaram o desejo de procurar possibilidades concretas que contribuam para uma comunhão efectiva de todos os cristãos. Uma busca feita em comum, realizada de jeito informal, mas capaz de levar a gestos concretos de solidariedade e a abrir caminhos de confiança mútua.

Hoje, ao nosso lado, é já possível identificar a dor e a desesperança das vítimas dos sistemas financeiros e políticos em nada distantes daqueles que o profeta Miqueias denuncia (9). Ignorar os gritos dos aflitos e injustiçados é recusarmos o apelo de Jesus: “Sereis minhas testemunhas”. Este testemunho de unidade, porém, só ganha sentido na “vida quotidiana de cada um de nós”, como sublinha Henry Quinson.

Com estima fraterna,

grão de mostarda

(1)   Henry Quisson, “Moine des cités – de Wall Street aux Quartiers-Nord de Marseille”, Nouvelle Cité, França, 2008. Versão portuguesa: “Do champanhe aos Salmos – de Wall Street aos Bairros-Norte de Marselha”, Paulinas, 2010
(2)   Iniciada em 1908, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é actualmente celebrada em todo o mundo por cristãos de Tradição Protestante, Ortodoxa e Católica, entre 18 e 25 de Janeiro.
(3)   O profeta Miqueias (740-700 aC) experimentou um momento histórico doloroso de opressão estrangeira – a Assíria exigia a Israel o pagamento de vassalagem –, e um conjunto de injustiças, por parte dos governantes de Jerusalém, que iludiam o povo com falsas promessas de solução cultual para uma libertação imediata.
(4)   Ascensão - Sereis minhas testemunhas in “Ousar acreditar – a celebração da fé em Taizé”, Paulinas, 2012
(5)   Ver texto bíblico de introdutório.
(6)   As divisões entre os cristãos precisam de ser curadas in “Deus só pode amar”, Gráfica de Coimbra, 2004
(8)   O irmão Aloïs, durante a reflexão da oração da noite de 31 de Dezembro passado, em Roma, sugeriu: “ (…) Não esperemos que o caminho da unidade esteja programado até ao fim; antecipemos a reconciliação! Já não podemos continuar a alimentar as separações. Por causa das nossas divisões o sal da mensagem evangélica está a começar a perder o seu sabor.”
(9)   “Ai dos que planeiam maldades e tramam iniquidades em suas camas! Ao amanhecer executam-nas, porque têm o poder nas suas mãos. Cobiçam terras e apoderam-se delas; cobiçam casas e roubam-nas; oprimem os homens e as suas famílias e tomam-lhes as usas propriedades (…). Escutai-me, chefes de Jacó, príncipes de Israel: vós odiais a justiça e desvirtuais o direito. Edificais Sião com sangue e Jerusalém com crimes. Os magistrados julgam por suborno, os sacerdotes pregam por salário (…).” Ver Miqueias 2, 1-2; 3, 9-11

ITINERÁRIO DE CONFIANÇA

“Recusemos fazer separadamente o que podemos fazer juntos. Visitemo-nos uns aos outros. Há também um desconhecimento recíproco entre diferentes confissões cristãs. Quando o ultrapassamos descobrimos tesouros do Evangelho nos outros.
Voltemo-nos juntos, com humildade, para Cristo, talvez em silêncio. Escutemos juntos a sua palavra.”

Estas palavras do irmão Aloïs, proferidas em Roma, são um convite a não desistirmos. Será possível iniciar um ITINERÁRIO DE CONFIANÇA no nosso país, de maneira informal, como refere o prior de Taizé: “Visitemo-nos uns aos outros…”?

O grão de mostarda, associando-se a este apelo, deseja partilhar com os cristãos de todas as Tradições este ITINERÁRIO DE CONFIANÇA, permitindo o encontro de quantos desejarem descobrir “tesouros do Evangelho nos outros”. Esta atitude de confiança tornará possível o cumprimento do desejo de Jesus: “Sereis minhas testemunhas”.

Para procurar caminhos para este ITINERÁRIO o grão de mostarda disponibiliza o espaço da comunidade em Forjães (Esposende) para o encontro de todas e todos que desejarem iniciar esta caminhada. E para permitir uma participação mais ampla, disponibilizamo-nos para encontros no âmbito geográfico das respectivas comunidades.

A esta iniciativa podem associar-se não apenas cristãos, mas todas e todos que, não partilhando o projecto de Jesus, procuram o bem da Humanidade.

Telfs.: 253193543 ou 965336325

sábado, 19 de janeiro de 2013

ESPERANÇA: CAMINHO E HORIZONTE



Caríssimas e caríssimos,

Quais os nomes da Esperança? Para os apreendermos e mastigarmos, diz-nos Luísa Alvim, “é preciso erguermo-nos da tenebrosa profundidade e lembrarmo-nos de voo possível das aves do céu que nos elevam a ver os lírios” (ver Mateus 6, 24-34). O repto do projecto evangélico remete-nos para os gritos dos muitos que estão no fundo do poço…

E, em cada gesto acolhedor, em cada palavra de ternura, será possível ir descortinando “o nome da esperança”? (ver ANEXO)

Com estima fraterna,

grão de mostarda


Luta contra a desistência
 
Estimada Luísa,

A tua carta insiste na importância do sentido da esperança; a palavra, e mais do que a palavra, essa perceção repete-se como um refrão quando ouvimos, já não a sinfonia de um mundo equilibrado e fraternal, mas os ruídos e os estrondos da barbárie que vai acontecendo perto e também longe de nós (se é que hoje ainda podemos falar de lonjura): as guerras transformadas em tragédia/espetáculo, que todos os dias nos entram em casa pelas novas tecnologias não são a expressão completa da barbárie, sabendo que há outras igualmente cruéis que não obtiveram lugar na programação da comunicação social. Se a guerra civil na Síria nos choca, e com toda a razão, o que se passa na Republica Democrática do Congo só eventualmente merecerá uma referência menos relevante do que a má disposição de uma estrela do desporto. E, no entanto, temos as mortes inocentes provocadas pela guerrilha gerada por cumplicidades no interior e alimentada, do exterior, pelos senhores do dinheiro que continuam a roubar as riquezas naturais, como é o caso do coltan – o “ouro azul”, já responsável por mais de quatro milhões de mortos; responsável ainda porque continua a provocar uma das taxas mais baixas de esperança de vida, a explorar o trabalho infantil, com a negação do acesso ao ensino mais básico, com as populações completamente desprotegidas e entregues aos humores dos soldados que matam, roubam e violam numa total impunidade; responsável pelo abandono forçado das terras, a par de uma agressão constante e sem retorno ao ambiente. O mundo não vê nem quer ver. Aliás como é que iríamos manter o nosso nível de vida e de consumo sem as matérias primas que nos vão proporcionar, por exemplo, os telemóveis e toda a parafernália dos equipamentos eletrónicos?

Mas olhando para mais perto de nós, contemplando tanta medida e tanta atitude sem sentido que levam as pessoas a sentirem-se como que paralisadas quando olham em frente, sinto-me um pouco naquela situação que referias de Etty Hillesum. Tenho o livro “Uma vida transformada” (1) em frente de mim, com o seu rosto na capa e por baixo aquela imagem que se tornou um ícone do Holocausto, a via férrea de Auschwitz-Birkenau, apontando e atravessando a frontaria da entrada do campo, com aquele portão aberto para uma viagem sem retorno. Caminhei ainda há poucas semanas nessa linha, atravessei o arco e fui “mastigando” o que ali de trágico, desumano e insensato se passou; mas também fui pensando como no meio da mais profunda desumanidade pode surgir o que de mais nobre tem a pessoa humana: ultrapassar os seus limites. Essa foi a experiência de Etty; quando finalmente deixou o Campo de Westerbork na Holanda, naquele comboio atulhado de gente transportada como animais, numa viagem sem regresso, ela atirou, através duma fresta do comboio, um postal para uma amiga, em que escrevia: “Partimos do campo a cantar”. Três dias depois chegava a Auschwitz, onde poucas semanas a seguir sofreria a sorte de milhões no extermínio provocado por quem tinha perdido o melhor de si mesmo, o melhor da humanidade. Como escreve o padre Tolentino Mendonça na capa do livro “O grande nascimento dá-se na alma, quando se aceita que a única coisa que nos é pedida é que sejamos.” Esse é o manjar que pode alimentar a esperança, que precisa de ser “mastigada”, saboreada, sem impaciências, de modo que possa ir transformando a pessoa.

E para concluir, uma referência a essa luta contra a desistência: no meio do bairro de barracas da minha paróquia (*), que há já perto de 15 anos esperávamos ver terminado, mas onde ainda habitam pessoas em condições tão degradantes como então, tendo terminado o projeto oficial que ia dando alguma dignidade aos seus moradores, um grupo de voluntários quer dar continuidade a uma presença fraterna, olhando sobretudo para as numerosas crianças que sem isso ficariam marginalizadas e privadas daquele mínimo de condições a que hoje todos podem aspirar. Quando não há dinheiro, subsídios e apoios, mas há pessoas, então há que puxar pela imaginação. Foi aí que descobrimos o Menino do presépio. As luzes natalícias apagaram-se; vamos tentar acender outras luzinhas. É o exemplo de Etty, que escreve: “Eu tento olhar as coisas de frente, até os piores crimes, a fim de descobrir o pequeno e nu ser humano no meio do monstruoso naufrágio provocado pelos atos sem sentido do homem”.

Com esperança,

Valentim

(1)    Patrick Woodhouse, “Etty Hillesum – uma vida transformada”, Paulinas, 2011
(*) Paróquia de S. Pedro do Prior Velho, Sacavém
Foto: via férrea de Auschwitz-Birkenau, da capa do livro “Etty Hillesum – uma vida transformada”

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

AO ENTARDECER



Jesus disse: “Quando apresentares a tua oferta a Deus, se te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante…” (ver Mateus 5, 23-24)

“Pode haver no ser humano pulsões de violência. Para que se erga confiança na Terra, importa começar por nós mesmos: caminhar com um coração reconciliado, viver em paz com os que nos rodeiam.” (irmão Roger, Luta e contemplação in “Viver para amar – palavras escolhidas, Paulinas, Prior Velho, Sacavém, 2010)



Ilustração: “Reunion”, de josefina de Vasconcellos