segunda-feira, 22 de setembro de 2014

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

Por vezes o tempo de férias torna-se um turbilhão de actividades: há que conhecer tudo, ver todos os sítios e monumentos que nos aconselharam a não perder; comprar e provar tudo o que é especialidades gastronómicas; experimentar a multidão das praias… Depois, somos confrontados com as exigências da rotina: com o dia-a-dia familiar e do trabalho. E o descanso, o encontrarmo-nos, a nós mesmos e aos nossos – que por vezes vemos de fugida à noite, durante praticamente todo o ano – o merecido tempo livre acaba sempre adiado…

Álvaro Carvalho, nesta semana, propõe-nos uma reflexão sobre o uso do tempo livre, a liberdade de usufruir do tempo, não porque tem que ser, mas para gozar a existência desse tempo. A inspiração recebeu-a de um trecho do livro “Só avança quem descansa”, do jesuíta Vasco Pinto Magalhães.

Fraternalmente,

grão de mostarda

Tempo livre ou um tempo de liberdade



Neste regresso de férias estou confrontado com múltiplos afazeres profissionais, cursos de formação e outros… No meio de tanta azáfama retomei a leitura do livro “SÓ AVANÇA QUEM DESCANSA”*, do qual partilho um excerto

Álvaro Carvalho


“Se isto é assim, talvez seja bom encontrar alguns modelos de vida mais saudáveis, algumas estratégias que nos permitam utilizar melhor o tempo. E, se calhar, para isso ajudava--nos ler o Evangelho de outra maneira.
Já pensaram como é extraordinário Cristo ter tido tempo para realizar tanta coisa em apenas três anos! E Jesus “deu-se ao luxo” de estar trinta e tal anos sem fazer nada! Dedicado ao ócio, isto é, a aprender a ser gente, a estabelecer relações, a maturar o afecto, a ligar-se à vida, a conhecer o seu mundo, a perceber o seu povo, as suas tradições e religião.

Esse tempo a que chamamos “vida oculta” é uma mensagem, não está ali por acaso! De facto, esta desproporção aparente no uso do tempo por Jesus é, na realidade, um equilíbrio bem conseguido. Devia fazer-nos pensar, por exemplo, como entendemos, hoje, aquilo que chamamos equilíbrios nesta matéria. A gestão do tempo é sempre um equilíbrio. Mas os equilibrismos que nós fazemos tornam-nos por vezes ainda mais escravos do tempo, porque o nosso tempo livre não é um tempo de crescimento, um tempo de liberdade.

O meu tempo livre é um tempo de liberdade? Na maior parte das vezes não é. É um intervalo entre duas maçadas, em que eu não sei o que hei-de fazer, onde me sinto alienado, um “bocado” que custa a passar ou se aproveita para disparatar: o que não significa descansar! Mas tempo livre, como tempo de liberdade, é algo sem o qual não podemos viver bem. E é pena que não entre nas nossas agendas este conceito de tempo livre!

Eu também tenho uma agenda horrorosa, assustadora para toda a gente que olha para ela! Tenho muita consciência disto, e bastante experiência da sua difícil gestão. Não sendo mais que os outros ando a refletir sobre os espaços livres, como aumentar-lhes a qualidade: vou arranjando coragem para “ perder tempo”… ou seja arranjar tempo para a liberdade, para o não rentável, mas mais relacional: que tenha mais a ver com a minha vontade libertada, com o coração pobre e obediente ao essencial – o que tira muito stress! Não vá tornar-me no homem atarefado e importante mais pelo que faz do que pelo que é. Escravizado pelo “tem de ser”; mas, depois, nem sequer sabe quem é!”

* Vasco Pinto de Magalhães, s.j., “SÓ AVANÇA QUEM DESCANSA”, Tenacitas, 2012

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

escrita em cativeiro, há quase quatro décadas, uma carta de Nelson Mandela abordava questões que, à partida poderiam parecer despropositadas para um homem condenado a prisão perpétua. O conhecimento pessoal e a conduta humana constituía praticamente o seu conteúdo…

Em que consiste a santidade? Thomas Merton (1915-1968) responde-nos: “Para mim, ser santo significa ser eu mesmo”, concluindo: “Por isso o problema da santidade (…) é, na realidade, o problema de chegar a saber quem sou eu e descobrir o meu verdadeiro ser” (1).

Ao recordar-nos um excerto da carta de Mandela, Paula Guerreiro desvela-nos a actualidade e o que de comum têm o pensamento do então líder anti-apartheid Nelson Mandela e as palavras do monge cisterciense Merton: o encontro com o nosso ser mais profundo, conduz-nos a caminhos de bondade, tão urgentes no tempo presente.

(1) “Nuevas semillas de contemplacíión” (Santander, 2003)

Fraternalmente,

grão de mostarda


Uma carta inspiradora



Excerto de uma carta de Nelson Mandela a Winnie Mandela, na ocasião sua esposa, escrita na prisão sul-africana de Kroonstad, e datada de 1 de Fevereiro de 1975.
A sua profundidade, autenticidade e beleza é maravilhosa e simultaneamente inspiradora. A mim faz-me bem lê-la e transmite-me uma enorme serenidade.

Paula Guerreiro


“… a cela é o lugar ideal para nos conhecermos a nós próprios, para aprofundarmos de forma realista e regular os processos da nossa mente e dos nossos sentimentos. Ao avaliarmos a nossa evolução enquanto indivíduos tendemos a concentrar-nos em fatores externos como a posição social, o poder de influência e a popularidade, a riqueza e o nível de instrução. Estes são, de facto, fatores importantes para a avaliação do sucesso individual no que se refere a aspetos materiais e é perfeitamente compreensível que muitas pessoas se empenhem em alcançá-los. 

Existem no entanto fatores internos que podem ser ainda mais decisivos na avaliação de uma pessoa enquanto Ser Humano: a honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a generosidade, a ausência de vaidade, a disponibilidade para ajudar os outros – qualidades ao alcance de todas as almas – constituem os alicerces da vida espiritual de cada um de nós. A evolução em matérias desta natureza é impensável sem uma introspeção séria, sem nos conhecermos a nós próprios, sem conhecermos as nossas fraquezas e os nossos erros. 

No mínimo, se não nos der mais nada, a cela proporciona-nos a oportunidade de analisarmos todos os dias a nossa conduta na sua globalidade, de ultrapassarmos o que de mau houver em nós e desenvolvermos o que possamos ter de bom. A meditação frequente, nem que seja durante 15 minutos por dia, antes de adormecer, pode ser muito proveitosa a este respeito. No início pode parecer-nos difícil identificar os aspetos negativos da nossa vida, mas com perseverança este exercício poderá revelar-se altamente compensador. Não devemos esquecer que um santo é um pecador que não cessa de se esforçar” (*).


 (*) Edição portuguesa: “Arquivo íntimo de Nelson Mandela”, Editora Objectiva



 

domingo, 7 de setembro de 2014

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

no mais profundo da nossa consciência escapam-se-nos, tantas vezes, as genuínas relações humanas… O quotidiano parece absorver, quando não mesmo congelar, a sensibilidade interior que nos permitiria alimentar uma confiança de abertura a cada ser humano.

Ricardo Brochado, nesta semana, aponta-nos: mesmo em situações exigentes, esta abertura de confiança torna-se dom na delicada e frágil arte de estimar cada momento de um relacionamento humano.
Fraternalmente,

grão de mostarda



DA ARTE DE HUMANIZAR



Todos os dias sou submetido a volumes enormes de dados que sou obrigado a descodificar. Através da internet chegam-me imensos estímulos que me obrigam a ser uma máquina de descodificação e relacionamento entre os volumes, fazendo com que o meu cérebro esteja em constante actividade. 

No meu trabalho relaciono-me com pessoas que não têm cara, porque estou constantemente a trocar emails com as mesmas. É difícil manter a capacidade de que estou a comunicar com um ser humano que tem sentimentos e não é só mais um cifrão que assim que usufruir dos meus serviços se converterá em mais dinheiro no banco. Fico por vezes apático e mecânico, repetindo sempre as mesmas respostas, as mesmas soluções.

Por filosofia das duas empresas com as quais colaboro, ficou definido que, uma vez por semana tenho que ir para o terreno e comunicar verbalmente com os nossos clientes. Aí, redescubro os factores que nos tornam, a todos, humanos: o toque, um aperto de mão, dois beijos, o riso, o interesse genuíno nas coisas que dizemos, a interacção à volta de uma mesa com comida, olhos a sorrir, sobrancelhas carregadas de novidades e surpresas...

Estas informações descodifico facilmente, até porque somos seres empáticos, que reagem a estímulos de outros seres com a mesma massa e espírito. 

Depois de um dia com pessoas, fico cada vez mais triste por ser um refém das tecnologias e saudosista dos tempos em que o convívio não tinha hora marcada. 

Por falar nisso, vou ver se encontro amigos na rua.

Ricardo Brochado

Ilustração: Dila Rodrigues

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ESCUTAR O AMOR



O coração que ama é como um país sem fronteiras que acolhe todos os povos... E a sua única lei é o AMOR!

grão de mostarda

- Perante os conflitos que actualmente se desencadeiam em diversos países, sacrificando vidas inocentes e violentando tantos seres humanos, somente por interesses de poderes desumanizadores, tornamos esta reflexão os pensamentos em busca desta semana para converter os nossos corações.