sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

PENSAMENTO EM BUSCA



“Sem perdão não há futuro, nem na vida pessoal de cada um de nós nem nas relações entre os países. Por vezes, o perdão parece impossível. Contudo, esta impossibilidade momentânea não deve significar uma recusa definitiva. Alimentar e, se possível, expressar o desejo de perdoar é já um primeiro passo para uma cura.” (Reflexão do Irmão Alois, dia 31 de Dezembro de 2013, no encontro de Estrasburgo)




grão de mostarda

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

PENSAMENTO EM BUSCA



“Na família humana, as feridas da história deixam traços profundos e marcam as consciências e mentalidades ao longo de várias gerações. Contudo, as humilhações não devem necessariamente conduzir à violência. Elas podem ser curadas, não com a vitória de uns sobre os outros, mas quando os corações abrem um espaço para o respeito pela dignidade dos outros.” (Reflexão do Irmão Alois, dia 31 de Dezembro de 2013, no encontro de Estrasburgo)


grão de mostarda

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

CARTA EM BUSCA... 2013

Caríssimas e caríssimos,

A “Carta em busca…” tem sido anualmente enviada por ocasião da Páscoa, constituindo assim o tema de partilha para cada uma e cada um que têm participado nos encontros de Verão, desde há quatro anos na casa do
grão de mostarda.

Em 2013, diante das alterações sociais, resultantes de decisões políticas e financeiras desumanizadoras que têm provocado o desânimo e a falta de confiança na vida pessoal e coletiva da sociedade, a comunidade decidiu que o conteúdo da “Carta em busca…” deveria reflectir as buscas, os anseios e as preocupações dos diferentes grupos de cristãos com os quais temos caminhado. Que fazer? Como agir perante situações da injustiça institucionalizada? Que caminhos buscar para possibilitar uma sociedade fundada, não na ganância do lucro e do consumismo inconsciente, mas na solidariedade fraterna?

Dedicada ao tema “Mudar o coração… Viver na esperança atuante!”, a “Carta em busca…” de 2013 que agora deixamos nas vossas mãos, procura abrir espaços de diálogo e ser fonte de inspiração para o encontro anual do Verão de 2014.

Com estima fraterna,

comunidade grão de mostarda

Mudar o coração… Viver na esperança atuante!

 
“Quando vivemos a partir do coração surge a novidade, porque a atenção própria do coração remete-nos constantemente para o presente. E este é sempre novo, porque é um fluir incessante.” Carlos Maria Antunes, Só o Pobre se faz Pão (1)


 
O momento presente que vivemos, não apenas no nosso país mas também por todo o mundo, convoca-nos a uma mudança de coração; uma mudança convicta que não permitirá deixarmo-nos submergir pela desumanização instalada pelas diferentes instâncias políticas, financeiras e sociais na vida pessoal e coletiva das sociedades.
Conscientes da perturbação causada pela angústia do desencanto ou por uma cultura de desconfiança que nos tornariam incapazes de agir, não permitiremos que o coração se acomode ao medo que sufoca e imobiliza… Somente abrindo o nosso coração à realidade, ao “fluir incessante” do quotidiano, como propõe o monge Carlos Maria Antunes, se renovará o nosso olhar sobre o tempo presente. E assim descobriremos caminhos de confiança e novas formas de solidariedade, animados por uma esperança atuante.

Vivendo numa esperança atuante, cultivada pelo olhar atento aos acontecimentos redescobriremos possibilidades de mudança, a novidade que o agora já nos anuncia: “Quando vivemos a partir do coração surge a novidade…”, recorda-nos Carlos Maria Antunes.
A esperança atuante não é uma atitude de ingenuidade diante dos danos causados por decisões políticas e interesses financeiros que estão a ser perpetrados sobre a Terra e a Humanidade, particularmente sobre os mais fragilizados. Todavia, o sofrimento humano e a depredação dos bens naturais podem colocar-nos interrogações, como o irmão Aloïs, prior da Comunidade de Taizé, recentemente sublinhou: “Os diferentes tipos de violência no mundo e a exploração irresponsável dos recursos do planeta deixam-nos desconcertados (…). Como podemos gerir esta tensão entre a convicção de que há apenas uma família humana e as diferenças que vemos, talvez mesmo perto de nós?” (2).

As decisões de uma esperança atuante só surgirão a partir da bondade coração, que nos remete à urgência de relações fraternas. “Sem este olhar não há nenhuma ideologia, por mais generosa que seja, que me permita aproximar do outro.” Adverte-nos Carlos Maria Antunes, para concluir: “Não me faço irmão do outro; descubro-me irmão do outro.” A partir desta consciência, o nosso coração exigirá um novo paradigma civilizacional; uma diferente maneira de viver as relações humanas e um outro modelo de convivência política e económica entre as nações e os povos.
Até agora o complexo sistema financeiro apoiou-se na “abundância consumista”, levando as pessoas a acreditar que “pretendia conduzir à felicidade através da satisfação dos desejos de todos” (3). Propondo uma sociedade assente na vivência “da autolimitação e simplicidade voluntárias, da abundância frugal, da reabilitação do espírito da doação e da promoção da convivialidade” Serge Latouche conclui que “a frugalidade encontrada” permitirá “reconstruir uma sociedade de abundância.”

Não serão, certamente, os grandes feitos que semearão a esperança no terreno da morte e da violência, como parece haver, por vezes, a tentação de fazer em tempos de desilusão social. A nossa fragilidade tornar-se-á consciência de uma conversão de coração que nos fortalecerá na busca de caminhos fraternos… Como caminhar neste sentido? “Fazendo a experiência da solidariedade com outros, a experiência da pertença uns aos outros, de depender uns dos outros”, porque só assim “descobrimos que a bondade descobre-se não em ‘cada um por si’, mas em investir na solidariedade entre os humanos” (2). Ou seja, viver, já hoje, a esperança enquanto caminho e horizonte, experimentando mudar o presente… O “pão” de ontem retirado aos injustiçados tem de ser buscado e exigido, mas não nos remeter para os antigos paradigmas socioeconómicos. Os muros erguidos entre nós pelos sistemas políticos e sociais dominados pelo poder financeiro consolidaram a indiferença dentro dos corações, perante o desrespeito pelos direitos humanos. Temos consciência que nenhum daqueles muros poderá ser derrubado da noite para o dia… A escassez de atitudes humanizadoras só será ultrapassada com gestos de amabilidade solidária. Se o nosso coração, a nível pessoal, exige um empenhamento imenso para mudar, quanto mais não custa mudar o coração coletivo da humanidade…
“Tudo muda, e muda radicalmente, quando a nossa rotina quotidiana é vivida com atenção. Ao dizer atenção, dizemos de uma faculdade interior, a que poderíamos chamar o olhar do coração.” As palavras de Carlos Maria Antunes são-nos confirmadas pelas muitas iniciativas que nos vão desvelando as possibilidades de uma nova Humanidade…

Todos os dias conhecemos, em diferentes partes do mundo, pessoas que não se deixam agarrar pela espera dos indiferentes, nem ensombrar por sistemáticas notícias de tramas de embustes e corrupções, de violências e ódios, preferindo experimentar a esperança no exercício do seu quotidiano. Este caminho é assim sublinhado numa feliz expressão do teólogo Andrés Torres Queiruga: “ (…) não há mais funda ‘fidelidade à terra’ que aquela que vive animada pelos dinamismos do ‘Reino que já está entre vós’ (Lucas 17,21) ” (4).
Ou seja, é em nós que reside a capacidade de tornar a Terra um lugar habitável, um lugar onde seja inconcebível que ao órfão e à viúva não se faça Justiça… De nós depende uma nova soberania, construída a partir do presente. Uma soberania nascida do nosso interior mais profundo, porque depende da nossa vontade, da nossa convicção. Uma nova soberania exige-nos comportamentos novos… Uma nova soberania exige-nos decisões e atitudes de “fidelidade à terra”; uma fidelidade somente possível para os corações convictos de que “o presente é (o lugar) de onde se inicia a libertação, da qual o futuro será fruto” (4).


(1) Carlos Maria Antunes, “Só o pobre se faz Pão”, Paulinas, Prior Velho (Portugal) 2013.

(2) Irmão Aloïs, “Um dinamismo de solidariedade” (Julho 2012).
Ver: http://www.taize.fr/pt_article14171.html

(3) Serge Latouche, “La sociedad de la abundancia frugal. Contarsentidos y controvérsias del Decrecimiento”, Icaria, Barcelona (Espanha), 2012.
O economista e sociólogo francês Serge Latouche conclui que o sistema económico conduziu-nos a uma “insatisfação generalizada”, porque “as pessoas felizes são péssimos consumidores.” Propondo “a abundância frugal numa sociedade solidária”, recorda-nos que a crise e austeridade decorrente do atual modelo financeiro, “só pode originar um ciclo deflacionário que precipitará uma nova crise.” Prevenindo que, “perante esta ameaça evidente”, alguns economistas já propõem “o relançamento do consumo e do investimento para restabelecer o crescimento”, SergeLatouche avisa que a Terra já não suportará por muito mais este tipo de decisões. E, recordando Jonh Stuart Mill (1806-1873), defende que “a sociedade liberta da obsessão do crescimento” conseguiria sair da atual “mitologia produtivista” em que está enredada: “Se os espíritos tivessem outra perspetiva do que apenas adquirir riquezas, existiria mais lugar que nunca para todo o tipo de progressos culturais, morais e sociais, e assim ter uma melhor qualidade de vida (…).”

(4) Andrés Torres Queiruga, “Esperanza a pesar del mal – La resurrección como horizonte”, Sal Terrae, Santander (Espanha), 2005.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

PENSAMENTO EM BUSCA



AMOR de todo o amor, tu conheces as vacilações que nos paralisam e nunca desistes de cada uma e de cada um de nós… Saibamos viver na tua confiança infinita.




grão de mostarda

sábado, 14 de dezembro de 2013

Escutar o Amor



ESCUTAR O AMOR…




Dois seres humanos estão, nesta semana, sob a atenção do mundo inteiro. Nelson Mandela e Francisco, o bispo de Roma.


A morte do líder sul-africano, cujo funeral se realiza domingo, emocionou o mundo inteiro. A sua atitude perante os responsáveis pelo apartheid, o caminho de reconciliação que percorreu em cada momento, dentro e fora da prisão, ficará gravado no coração de todas e de todos os que desejam uma Terra mais amável para cada ser humano. A nomeação feita pela TIME, conhecida ontem, do Papa Francisco como figura do ano significa o reconhecimento da sua nova maneira de exercer a comunhão universal entre os católicos e a sua abertura, não apenas aos crentes de outras confissões, mas também a todas as mulheres e homens de boa vontade.


Quando, em 1964, Nelson Mandela foi condenado a prisão perpétua com mais 156 membros do ANC, em pleno tribunal declarou: “Desejei o ideal de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com igualdade de oportunidades. Espero poder viver para defender e alcançar este ideal. Mas se for necessário, é uma aspiração pela qual também estou disposto a morrer”. 


Esta sociedade fraterna e reconciliada foi ele que a construiu, a partir de 1990, depois de ser libertado e se tornar Presidente da África do Sul. Ao Delegado da Cruz Vermelha para a África, Jacques Moreillon, que o visitou seis vezes na prisão de Robben Island, disse um dia: “O ódio não serve para nada. É um sentimento de autodestruição, porque apenas magoa e fere aquele que odeia e não aquele que é odiado” (*). As palavras dirigidas aos juízes e as que confidenciou na sua cela a Moreillon já revelavam o ser humano que, sem ressentimentos, entregou toda a sua vida à construção de uma sociedade mais justa e fraterna.


Um apelo genuíno à fraternidade universal é precisamente o tema escolhido pelo bispo de Roma para a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 janeiro de 2014). 


“(…) no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar.” Estas palavras iniciais da mensagem constituem um apelo: só faz sentido o ser humano viver de acordo com um plano de harmonia fraterna que, conforme o Papa Francisco enuncia ao longo do seu texto, deverá ser integrado em todos os sectores da convivência social – a política, a economia, a busca da paz, a perseveração da natureza, a rejeição da corrupção e a eliminação da pobreza…


“Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada”, propõe Francisco, como convite a uma mudança de coração que possibilitará um novo modelo de vida pessoal; será sempre impossível uma reconversão das estruturas políticas e sociais enquanto, cada um e cada uma de nós não estiver convicto da urgência de uma Humanidade mais humanizada. E esta decisão, sublinha o bispo de Roma, “implica tecer um relacionamento fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perdão, o dom total de si mesmo.” A concretização deste projeto pode ser alimentado no exemplo de vida comprometida de Nelson Mandela com a defesa da dignidade humana.



(*) ver semanário EXPRESSO do passado dia 7 Dezembro.





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