segunda-feira, 2 de março de 2015

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

uma “boa notícia”, é o que nos oferece nesta semana Paula Guerreiro. A sua reflexão ESCUTAR A VIDA abre-nos o espaço da intimidade afável e compassiva de uma família inteira para com um dos seus membros com doença de Alzheimer.

O sofrimento e a dor não podem, em si mesmos, ser considerados vias de “regeneração” ou de “elevação” pessoal ou espiritual. Mas a fragilidade e as situações limite de cada uma e cada um de nós podem suscitar o (re)encontro com o mais profundo do coração humano: a bondade, a bondade nascida de uma gratuidade absoluta…

O irmão Roger de Taizé ressaltava sempre que Deus, ao procurar-nos, não descobre um monte de escolhos, mas “encontra em nós a beleza profunda da alma humana”. É precisamente o que, na sua reflexão ESCUTAR A VIDA, Paula Guerreiro nos desvela: “a manifestação de um Amor maior.”

Fraternalmente,

grão de mostarda


A BELEZA PROFUNDA DO SER HUMANO


Um olhar vazio, neutro, parado e apático. É este o espelho do teu rosto. É esta a tua expressão. Há muito que o Alzheimer tomou conta de ti, da tua mente e do teu corpo. Já não conheces os teus filhos, os netos, a tua família ou os teus amigos. Já não te reconheces. Mas sabes, a tua família conhece-te e lá em casa tu contas: és a mãe, és a avó e és a amiga que está presente. Há gestos bonitos de se ver… 

Não entra ninguém em casa que não te cumprimente e se envolva contigo em manifestações de carinho. Não sai ninguém de casa, sem primeiro, chamar pelo teu nome e despedir-se de ti. Todos te tratam com um respeito e uma dignidade humana comovente. A vida é reorganizada em função dos cuidados a ter contigo. Não tens autonomia para as coisas mais básicas e elementares do dia-a-dia, seja para cuidar da higiene pessoal, para te vestires ou te alimentares. Porém, todos se ocupam de ti com uma preocupação constante para que te sintas confortável. 

As limitações são imensas. A capacidade de locomoção é nula. A comunicação é inviável. Da tua boca não sai uma palavra. Mas sabes, os que te amam continuam a interpelar-te. Basta encostar o rosto aos teus lábios que se recebe um beijo. É espantosa a tua expressão, tão doce e serena. Não dizes se tens frio ou calor, se tens fome ou sede ou se estás triste. Mas sabes, por vezes recebe-se um sorriso teu. O beijo, o sorriso têm sabor a milagre e nem imaginas a festa que é quando isto acontece.

Conheço muito bem o seio familiar que acabo de retratar o cuidado, o carinho, a dedicação e o empenho que esta família coloca no bem-estar da doente. A família devolve-lhe a dignidade que a doença lhe retirou. É admirável e louvável. É a manifestação de um Amor maior, gerado no seio do amor familiar.  É uma Bênção e uma Graça compreender e ver a presença deste Amor. É o evangelho a acontecer, uma boa notícia.

Paula Guerreiro


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

Até que ponto a vontade e o comportamento humanos podem ser na sua totalidade livres? O monge beneditino Anselm Grün assinala: “É evidente que estamos marcados – através da nossa história pessoal, através dos nossos genes, através da nossa estrutura cerebral. Ainda assim, podemos dizer que existe uma última liberdade: podemos decidir-nos a favor da vida ou contra ela.” (*). Podemos interpretar assim esta resposta: na vida há uma escolha; ou seremos a favor do Amor ou contra. Porque verdadeiramente a liberdade só pode ser, enquanto “espaço” no Amor.

Ricardo Brochado remete-nos, nesta semana, para a morte, para a perda de alguém que amamos…
Conduzindo-nos à compreensão dos sinais que nos permitem “entender a perda de entes queridos” sublinha: permitir a dor é deixar curar… E assim vamos apreendendo as palavras do filósofo Gabriel Marcel: “Amar significa dizer ao outro: tu, tu não morrerás.”

(*) “O livro das respostas”, Paulinas, 2008

Pedimos desculpa por só hoje ter sido possível enviar ESCUTAR A VIDA

Fraternalmente,
grão de mostarda



AMAR: “espaço” de não-morte


Faz parte do ciclo normal da vida que ela termine. Aliás, o oxigénio que é tão essencial para a vida é a sentença de morte, que nos provoca o envelhecimento, a oxidação, como a ferrugem nos metais.

Faz parte da nossa vida entender a perda de entes queridos de uma forma saudável, com lutos, cerimónias, com o fecho de uma sepultura, com o espalhar de cinzas… 

Defendo de forma pragmática a memória e a saudade mas não advogo os velórios extensíssimos, as carpideiras e uma série de rituais que muitos definem como medievais e que disso não têm nada. Na Idade Média a morte era uma celebração da Vida de quem falecia, onde se contavam histórias laudatórias do falecido, algumas até embaraçosas e caricatas. As mesmas histórias que hoje são contadas nos velórios um pouco às escondidas mas que o deviam ser às claras. 

A dor faz parte de todas as curas. Da mesma forma que quando nos magoamos e sentimos aquela dor latente durante a cicatrização, também a dor espiritual vai sarando aos poucos e a saudade, que pode trazer dor, é a forma saudável de ir fechando a ferida. Com tempo.

Os Romanos diziam que as pessoas só morriam quando deixássemos de as recordar, é por essa razão que a minha família está toda VIVA.

Ricardo Brochado

Foto: Allen Hsua

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

vivemos o momento oportuno para uma “nova atitude existencial”? A insatisfação poderá levar ao desânimo, perante os diferentes muros que se vão erguendo no quotidiano das sociedades.

O caminho exige-nos distinguir as razões das novas injustiças, que além de gerar vítimas humanas conduz ao desaparecimento da nossa casa comum, a Terra.
Com as palavras desassombradas de Serge Latouche e as propostas do irmão Aloïos de Taizé para um nova solidariedade, desejamos animar os nossos corações a buscar o mundo que existe no mundo em que vivemos.

Fraternalmente

grão de mostarda


ENCANTAR O MUNDO – a utopia de uma nova solidariedade



“Voltar a encantar o mundo” para que desponte “a utopia concrecta” é o apelo de Serge Latouche, na última página do seu livro “Vers une société d’abondance frugale” (1). Para este professor emérito de economia da Universidade de Pais-Sud (Orsay), trata-se de “DESCOBRIR QUE HÁ UM MUNDO NO SEIO DO MUNDO EM QUE VIVEMOS…”.

A obscuridade do tempo presente parece esvaziar de sentido as propostas de Latouche: uma minoria com interesses financeiros, depredadores de recursos naturais e das vidas de multidões – as vítimas de novas escravaturas –, está a instigar uma civilização alicerçada na desconfiança e no medo, que paralisa e rouba o quotidiano.
De modo avisado, Latouche situa o problema no seu adequado contexto: “O excesso de consumo dos bens materiais coloca um número cada vez maior da população [mundial] na escassez e nem sequer assegura um verdadeiro bem-estar para os restantes”. E conclui que “a criação de necessidades e de bens ilimitados” tornou-se um “círculo vicioso” causador de uma “crescente frustração.” E continua a sê-lo, de modo desenfreado…

Não será este o momento oportuno para se empreender um caminho rumo a “uma nova atitude existencial”, como propõe Hans Küng? (2). Este caminho levar-nos-ia, certamente, ao paradigma de Latouche: a descoberta do mundo que existe no mundo que hoje nos é dado viver… Uma ruptura com o actual modelo de soluções políticas e financeiras, que transformaria as nossas vidas em projectos de fraternidade luminosa.

No Encontro Europeu deste ano em Praga, o irmão Aloïs de Taizé, diante a realidade presente, fez uma proposta “rumo a uma nova solidariedade”. Nas suas «Quatro propostas para ‘ser sal da terra’» (3), desenha o mapa da “nova atitude existencial”, somente concrectizável no nosso quotidiano se iniciada por uma mudança interior:
Partilhar o gosto de viver com os que estão à nossa volta. Como conseguir, “perante um grande número de obstáculos”, perguntarmo-nos: «Para quê continuar a lutar?».

Comprometer-nos pela reconciliação. “Há situações em que é urgente a reconciliação.” Um compromisso nesse caminho exige-nos “compreender os medos que aprisionam o outro nos nossos preconceitos.” Por isso, é nosso encargo também “ganhar consciência de que os outros podem ter algo contra nós.”

Trabalhar pela paz. “O desejo de paz alarga o nosso coração e enche-o de compaixão por todos.” Esta decisão interior conduz “algumas pessoas comprometem-se na promoção da paz assumindo responsabilidades na vida pública dos seus países…” Será possível avaliar “situações de injustiça” oferecendo “a nossa protecção aos que estão vulneráveis” e assim identificar “as formas modernas de escravatura”?

Cuidar da nossa terra. “A terra não é propriedade nossa.” Este princípio leva-nos à consciência de que “temos um dever de solidariedade entre pessoas e povos e para com as próximas gerações.” E será a nossa “maneira de consumir e de utilizar os recursos naturais” que edificará na sociedade “um estilo de vida que permita um desenvolvimento sustentável…” Necessitamos de “imaginação e de criatividade”. E assim nascerão “novos projectos para a sociedade.”

E assim a Humanidade voltará a “encantar o mundo”!

grão de mostarda

(1) Seguimos a tradução em espanhol “La sociedad de la abundancia frugal”, Icaria editorial, Barcelona, 2012
(2) “Lo que yo creo”, Editorial Trotta, Madrid, 2011