domingo, 15 de junho de 2014

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

Semana após semana, desde que em Maio se iniciaram, as reflexões ESCUTAR A VIDA foram surgindo, de modo plural, despertas para o mais profundo da vida escutada. Cada texto reconduziu-nos, por entre a obscuridade que nos vai preenchendo as páginas do momento presente, a caminhos de amabilidade, a partir de experiências pessoais ou de leituras do quotidiano que Ricardo Brochado, José Rodrigues e Assunção Bessa, Paulo França, Álvaro Carvalho e Paula Guerreiro foram fazendo… No próximo sábado, Paula Guerreiro dará continuidade a este ciclo de reflexões.
Esta nossa reflexão deveria ter sido ontem enviada. Pedimos desculpa (ver ANEXO).

Fraternalmente,

grão de mostarda


CONVERTER O CORAÇÃO



“Eu mesma já fui atacada na frente de policiais de alto escalão e nada foi feito. Eu conheço o sistema, e ele tem fracassado com as mulheres da Índia.” 

A denúncia, que há dias chegou por mail, é feita por Alaphia, militante da Avaaz (*) na Índia, após o conhecimento público de mais duas meninas terem sido vítimas de violação sexual, no dia 27 do mês passado. Quando as adolescentes, uma de 14 e outra de 15 anos, desapareceram, o pai de uma delas foi à esquadra da Polícia, implorando de joelhos por ajuda. “Eles (os agentes) riram do homem e mandaram-no de volta para casa”, refere a militante da Avaaz, acrescentando que, no seu país, em cada 22 minutos uma mulher é violada… com a complacência da Polícia, dos tribunais e dos responsáveis políticos, escreve Alaphia.

 Aos clubes que disponibilizaram jogadores para o Mundial 2014, no Brasil, a FIFA garante mais de 70 milhões de euros para seguros de saúde, caso algum dos seus futebolistas fique lesionado. Mas logo no primeiro dia de início deste megaespectáculo financiado por empresas que exploram milhares de trabalhadores em todo o mundo, é-nos dado ver um vídeo no qual, perante uma pequena multidão de pobres (“apenas cerca de 50”, garantia a Polícia) era atacada por cerca de uma centena de agentes…
Estes acontecimentos evocam uma passagem da CARTA EM BUSCA (1), que enviámos em Janeiro deste ano: “Não serão, certamente, os grandes feitos que semearão a esperança no terreno da morte e da violência, como parece haver, por vezes, a tentação de fazer em tempos de desilusão social. A nossa fragilidade tornar-se-á consciência de uma conversão de coração que nos fortalecerá na busca de caminhos fraternos…” 

Como caminhar neste sentido? “Fazendo a experiência da solidariedade com outros, a experiência da pertença uns aos outros”, perceberemos que “a bondade descobre-se não em ‘cada um por si’, mas em investir na solidariedade entre os humanos” (2).

Só assim iremos convertendo os corações… “De nós depende uma nova soberania, construída a partir do presente. Uma soberania nascida do nosso interior mais profundo, porque depende da nossa vontade, da nossa convicção” (da CARTA EM BUSCA).

(*) A Avaaz é uma rede de campanhas globais de 36 milhões de pessoas que se mobiliza para garantir que os valores e visões da sociedade civil global influenciem questões políticas internacionais. ("Avaaz" significa "voz" e "canção" em várias línguas). A Avaaz tem militantes em todos os países e a sua equipa permanente está espalhada em 18 países. Endereço: www.avaaz.org

(1) O seu conteúdo é fonte de inspiração para o Encontro de Verão deste ano do grão de mostarda, a realizar a 12 de julho, dedicado ao tema: “Novas alternativas em tempos de mudança”
(2) Irmão Aloïs, “Um dinamismo de solidariedade” (Julho 2012).
Ver: http://www.taize.fr/pt_article14171.html



sábado, 7 de junho de 2014

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

Susan aprendeu a ter uma atitude positiva perante a Vida. Não permitiu que a fragilidade humana a aprisionasse; abriu-se à bondade, usufruindo do amor de Alan e de cada momento vivido… Com uma singeleza profunda, Ricardo Brochado dá-nos a conhecer duas pessoas que sabem Escutar a Vida (ver ANEXO).

Fraternalmente,

grão de mostarda



UMA VIDA COMPLETA…



Num dia do passado recente, numa das minhas obrigações (prazeres) pessoais, estive a acompanhar um casal britânico dos seus setenta anos no Parque Nacional Peneda-Gerês. No momento em que os conheci, percebi que não eram pessoas comuns. O homem perguntou-me imediatamente se tinha sentido de humor, porque se não o tivesse, podia-me ir embora.

Respondi que não tinha e rimo-nos todos.

Não queriam pessoas sisudas na sua Vida, para isso já bastavam os jarretas dos amigos e alguns familiares.
Mostrei-lhes o Gerês e logo de manhã fizemos o teste de esforço. Susan, assim era o nome dela, tinha alguns problemas de saúde, incluindo joelhos e ancas frágeis, e pouca força muscular. Fomos devagarinho, por um trilho que estou habituado a fazer com pessoas cheias de sangue na guelra, e pulmões saudáveis. Nada de muito exigente, mas para aquela senhora seria uma grande conquista.

Quase a chegar à zona final do trilho encontrámos um prado junto a um ribeiro e ela, voluntariamente e com uma sageza que lhe provém da experiência, diz-me para continuarmos os dois que ela ficava ali sentada a apreciar a natureza.

Eu e o Alan descemos até ao terminus da caminhada, e voltamos… E ela lá estava, de sorriso nos olhos. Sentada na toalha que lhe tinha deixado, explicou-me que a imobilidade lhe revelara muitos segredos: as imensas quantidades de flores silvestres e ervas diferentes que a rodeavam, os insectos que se alimentam nelas, o barulho das águas do ribeiro e com um pouco mais de atenção a variedade de pássaros diferentes que ouvira cantar.

Perguntei-lhe se estava bem; respondeu-me que aqueles dez minutos ali lhe tinham carregado a alma de sensações necessárias, que já tinha o dia completo independentemente do que fizéssemos durante o dia.
Momentos antes, eu e o Alan, diante de uma vista maravilhosa de quedas de água que descarregam as águas do Rio Arado de alturas de mais de seis metros, em sucessivos níveis, partilhávamos o valor destas experiências para todas as pessoas. Que mesmo com setenta anos valia sempre a pena.

Tinham morado em cinco países diferentes durante a vida, estavam juntos há mais de cinquenta, e que o tempo deles estava a acabar.

Susan tem uma doença terminal e restam-lhes, aos dois, poucos dias juntos, revelou-me com as lágrimas escondidas pelos óculos de sol.

Ricardo Brochado


Foto: Rio Arado (Gerês)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

PENSAMENTO EM BUSCA



“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos.” (Antoine de Saint-Exupéry, escritor francês, autor do livro O Principezinho

grão de mostarda

quarta-feira, 4 de junho de 2014

PENSAMENTO EM BUSCA



“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” (Antoine de Saint-Exupéry, escritor francês, autor do livro O Principezinho)


grão de mostarda

domingo, 1 de junho de 2014

ESCUTAR A VIDA



Caríssimas e caríssimos,

O fio condutor das nossas opções libertadoras exige-nos a consciência da razão dos acontecimentos e das situações… Assunção Bessa e José Rodrigues colocam nas nossas mãos (e nos nossos corações) um desafio: buscar o sentido da Vida, torna necessário escutar TUDO o que a envolve, TUDO o que lhe dá sentido… (VER ANEXO).

A sua reflexão sobre ABRIL leva-nos a descobrir Faustino Vilabrille, um “cidadão do mundo” das Asturias (Espanha) empenhado em gestos de humanizadores da consciência coletiva da Humanidade.

Fraternalmente,
grão de mostarda


NESTES TEMPOS QUE SÃO DE ABRIL


Em abril passado celebrámos os quarenta anos do 25 de Abril de 1974. Individualidades dos mais diversos quadrantes políticos, sociais e mesmo religiosos apareceram, nos diversos órgãos de comunicação social, a recordar os seus contributos para que, definitivamente, chegasse ao fim aquela “noite escura” que a todos envolveu e oprimiu.

Num desses programas televisivos, alguém com responsabilidades na Igreja Católica narrou, com enorme entusiasmo, a sua participação ativa em muitas das manifestações do pós-25 de Abril: foi em Rio Maior (a das ”mocas”, recordou-se), em Braga e em muitas outras… 

E interrogámo-nos: porque não terá sido convidado um dos inúmeros cristãos (leigos ou religiosos) que, no decorrer dos longos anos da ditadura, juntamente com muitos outros e das mais diversas formas, arriscaram a sua liberdade e mesmo as suas vidas, para colocar mais uma “pedrinha” naquela engrenagem, provocando assim o fim daqueles que foram tempos de terror? 

Desta primeira interrogação nasceu uma segunda: porque é que nestas situações, muitos daqueles que na Igreja Católica têm mais responsabilidades são sempre apanhados em contra-pé, apesar de serem, em princípio e na sua maioria, pessoas razoavelmente inteligentes e cultas?

Passados uns dias lemos uma belíssima reflexão de Faustino Vilabrille, que muito nos ajudou, e na qual ele defende que se alguém pensar/desejar entrar nesta dinâmica da luta pela libertação dos oprimidos deste mundo, terá de desenvolver uma tríplice consciência para que os seus atos sejam efetivamente libertadores: Consciência Histórica, Consciência Crítica e Consciência Política.

Assunção Bessa e José Rodrigues 


ABAIXO, partilhamos convosco um pequenino resumo desta reflexão

SÓ É LIBERTADOR AQUELE QUE LIBERTA A PARTIR DA REALIDADE CONCRETA

Consciência histórica: Não basta constatar a realidade e ser solidário com o sofrimento das maiores vítimas da sociedade, é necessário procurar perceber as causas reais que conduziram a esta lamentável situação. O problema é que não temos Consciência Histórica do como chegámos a esta situação, quais foram e são as causas que a geraram. Aos poderosos não lhes interessa que o povo conheça o porquê das suas dificuldades. Descobrir este processo e analisá-lo criticamente é imprescindível para compreender o cenário em que nos movemos atualmente: donde vimos, porque estamos assim e onde nos conduz esta situação. A história que nos ensinaram não foi a história do povo e do seu futuro, mas a história do poder, do triunfo dos poderosos, da grandeza dos grandes e não da miséria dos débeis.
Estudar a evolução real do povo, é essencial para conhecer o porquê da sua situação atual. É aquilo a que se chama adquirir Consciência Histórica, que não termina só em saber donde vimos, mas de descobrir também as causas pelas quais estamos agora assim, e onde nos vai conduzir este processo.

Consciência Crítica: Este processo leva-nos a tomar Consciência Crítica da situação atual, a efetuar um diagnóstico crítico do momento em que nos encontramos, a descobrir as causas e os causadores da situação que vivemos em cada momento histórico e concreto das nossas vidas. A Consciência Crítica provoca automaticamente uma mudança de atitude em todos aqueles que alcançam este nível de consciência e os coloca numa atitude de movimento e compromisso.
Os altos poderes económicos, políticos e religiosos rejeitam, não querem, que o povo tenha Consciência Crítica, porque um povo criticamente maduro não é manobrável, nem manipulável. Sabe para onde vai, sabe o que quer, e exige-o.

Consciência Política: Isto conduz-nos diretamente à Consciência Política, a assumir compromissos libertadores, que libertem, na realidade concreta, as pessoas vítimas da opressão, da injustiça, da manipulação alienante. A Consciência Política é consciência Universal, porque descobre que só a partir do compromisso de todos com todos é possível exercer a força social necessária para subverter um sistema liberal de economia de mercado que conduz todos e cada um a um ponto sem retorno.
Diante do neoliberalismo dominante do nosso tempo, é impossível ser coerente com a mensagem do Evangelho de Jesus de Nazaré sem nos movimentarmos nestes três níveis de Consciência Histórica, Crítica e Política. Em contraposição com estas três dimensões de consciência, estão as consciências Mágica, Mítica e Ingénua, tanto do agradado do poder económico-político-religioso.

Resumo de reflexão de Faustino Vilabrille.
VER: http://blogs.periodistadigital.com/faustino-vilabrille.php/2014/05/01