sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ESCUTAR A VIDA


Caríssimas e caríssimos,

Paulo França iniciou em Agosto, em Escutar a vida, um conjunto de reflexões sobre as diferentes discriminações. Com um texto titulado Homofobia, abordou os problemas e as dificuldades que as questões relacionadas com a homossexualidade ainda desencadeiam. Depois, fez eco dos problemas vividos pelos imigrantes… A sua experiência profissional, no Ensino, possibilitou-lhe conhecer de perto esta realidade. E o seu testemunho ajudou-nos a olhar “aqueles estrangeiros”.

Nesta semana, a reflexão de Paulo França faz eco das diferentes rejeições dos mais velhos e, mais uma vez, a sua experiência como voluntário num lar de Terceira Idade, possibilita estabelecer pontes para uma problemática que comporta diferentes matizes, incluindo ao nível do Ensino.

Repetimos o que se escreveu na introdução da primeira destas três reflexões sobre as diferentes discriminações: que elas nos ajudem a abrir os corações, recordando-nos que Jesus disse: “Vinde a mim, vós que andais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei…” (ver Mateus 11, 28).

Com estima fraterna,

grão de mostarda


Conta-me como foi…

O envelhecimento é um processo natural que decorre da passagem do próprio tempo cronológico. A Europa tem vindo a sofrer, desde o final do século passado, um acentuado decréscimo da natalidade. Há, consequentemente, um envelhecimento da população. 

Portugal, como país europeu, não fugiu à regra e revela uma demografia com uma população bastante envelhecida. Quem não se recorda da onda mediática que focalizou um número de casos de idosos que moravam sozinhos e que morreram completamente sós e abandonados. 
 
Se hoje registamos um elevado envelhecimento da nossa população, paralelamente estamos a assistir a um empobrecimento da classe média que tende a desaparecer e a uma cada vez mais acentuada perda de direitos e garantias do tão debatido Estado Social. Estamos a chegar a um ponto de se perder a dignidade humana no que diz respeito às dificuldades em crescendo a que os contribuintes portugueses têm vindo a ser sujeitos: violento agravamento fiscal, subida vertiginosa do custo de vida, cortes salariais violentos, subida violenta da energia e dos combustíveis, desemprego e retirada de direitos e garantias que possam tratar as pessoas, cuja dignidade, auto-estima e sustentabilidade se estão a perder, volvidas mais de três décadas de democracia e de um sistema de apoio social conquistado a muito custo e reconhecido internacionalmente como modelo exemplar, basta pensar no facto de o Estado social ter sido motivo de debate nos EUA, que nunca tinham garantido aos seus concidadãos um conjunto de direitos que, em Portugal, estiveram garantidos e agora estão a ser cirurgicamente atacados. 

Se o benefício da assistência social e médica está afectar a classe média de forma muito rápida e intransigente, assistimos ao fortalecimento e ascensão de uma classe privilegiada e rica que perdeu a sensibilidade em relação à dor, ao abandono e à exclusão dos que mais precisam e que, ironicamente, sustentam o sistema como contribuintes com perca de benefícios. 

De entre aqueles que mais sofrem as consequências da exclusão, temos os idosos. Esta faixa social é a mais numerosa em termos demográficos, mas, de longe a mais maltratada. Há uma cultura de rejeição dos mais velhos. 

 A própria juventude facilmente troça e sente repugnância em relação aos mais velhos.
Hoje, é-se velho aos 35 anos para o mercado de trabalho. Mesmo que a Constituição Portuguesa consagre a proibição ou discriminação por idade. Respeita-se pouco quem já envelheceu e ainda tem de trabalhar. Procura-se apertar o cerco a estes resistentes que, se forem reformados, morrerão praticamente à fome devido à escassa quantia auferida na pensão ou reforma. 

Cabe aqui perguntarmos a nós mesmos que respeito temos pela nossa memória? Aquilo que estamos a fazer aos idosos vai seguramente ser feito a nós. Esta cultura é autofágica e autodestrutiva. 

Em comunidades africanas, asiáticas e latino-americanas existe o respeito estrutural pelos mais velhos. E também, bem perto de nós todos em Portugal, as comunidades ciganas têm estruturalmente um enorme respeito pelos seus mais velhos. Resta saber o que cada um de nós faz no dia-dia-a-dia quando vê um idoso na rua, nos transportes, etc. E se cada um de nós tem a coragem de se mirar, com frontalidade, no espelho.

No início da década de 2000, tive a oportunidade de ser voluntário num lar de Terceira Idade da Misericórdia da Madalena, na ilha do Pico, nos Açores. Era então professor do 2º ciclo do Ensino Básico, numa escola local. Como não me sentia completamente integrado naquele lugar, resolvi ocupar as minhas tardes e noites, de segunda a domingo, a apoiar as mulheres e os homens que estavam nesse lar. 
 
Guardo muitas memórias dessa vivência, pouco fácil mas muito enriquecedora humanamente. De entre os velhinhos que conheci, não encontrei nem um que estivesse ali por vontade própria e se sentisse nas suas “sete quintas”. Na verdade, essa gente é “atirada”, à força, pelas famílias, para esses lares, porque as mesmas famílias não têm tempo, paciência ou feitio para cuidar dela. É evidente que isto não é um problema novo entre nós. Mas se olharmos para trás, há 40 ou 50 anos, o destino dessa gente era diferente. Morria-se em casa, com todo o afecto à volta. As explicações são rápidas: as mulheres passaram a trabalhar e deixaram de ser “fadas do lar”, a esperança de vida é maior e os idosos aguentam mais tempo sem ficar dependentes da ajuda dos outros.
Mas não está tudo explicado. Se por um lado a esperança de vida é maior e o tempo útil de trabalho na vida activa também vai sendo prolongado, há uma cultura mediática que nos impõe de forma estereotipada a juventude como modelo. Então, assistimos a uma vida quotidiana em que os mais novos se enojam dos mais velhos. Estes são maltratados nos transportes públicos, sem prioridade de lugar, morrem e apodrecem sozinhos e esquecidos nas casas que deixaram de receber a visita dos outros. Nos anos 90, do século XX, em Portugal, os idosos eram impedidos por lei de utilizarem circularem nos transportes públicos colectivos nas horas de maior tráfego urbano…
Mas nem por isso, a juventude é privilegiada em termos de garantias e direitos. O trabalho precário está a vulgarizar-se e, se não fossem os pais a ajudar, muitos jovens cairiam na exclusão social rapidamente.
Esta rejeição dos mais velhos e o medo do envelhecimento não fazem sentido. Não cuidar do nosso passado e da nossa memória é deitar fora quem nos serviu mas já “não serve para nada”. Como se a juventude fosse um estado eterno em termos biológicos. Portugal, como membro da ONU, deveria reger-se pela Resolução 46/91 da ONU, de 16 de Dezembro de 1991, que consagra os direitos dos idosos, ao invés de estar num crescendo retrocesso em relação ao cuidado e assistência aos idosos.
Em relação à Educação, o sistema educativo deveria integrar nas Ciências Naturais, na Biologia, na História, Literatura, Educação Física e na Físico-química a abordagem do envelhecimento (assim como da morte), enquanto processo natural e inevitável. Somos nós os candidatos à exclusão quando o nosso envelhecimento chegar ao ponto de nos tornarmos dependentes.
Penso que nunca se fizeram estudos de investigação acerca da função da esclerose na teleonomia ou no relato de narrativas. Na realidade, os idosos têm uma grande tendência a ocupar a maior parte do seu discurso com informação passada que pode fornecer dados preciosos para a compreensão da história das mentalidades e do quotidiano, assim como da própria história de família. Recordo-me das narrativas fantásticas que a minha saudosa avó paterna nos contava. Sentíamo-nos mergulhados no passado com uma “cor local” espantosa e percebíamos muito neste “conta-me como foi…”.

Paulo França, 43 anos

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